“Nosso trabalho é tornar a verdade viral”, disse Ian Martínez Ahrens, diretor do EL PAÍS, na manhã deste domingo, no tradicional teatro Adolfo Mejía, em Cartagena das Índias. Sua resposta foi uma conversa sobre os desafios do jornalismo, evento no Hay Festival e como parte da comemoração dos 50 anos do EL PAÍS, moderada por Diana Calderon, diretora Hora 20 da rádio Karakol. “Poucos meios de comunicação podem se dar ao luxo de criar histórias separadas para cada rede”, acrescentou a mexicana Denise Maerker, âncora H+, outro dos jornalistas convidados. Este é um desafio criado pelo rápido progresso tecnológico, que, segundo Milenio, é agravado por políticas cada vez mais autoritárias e pela ameaça do crime organizado.
Um terceiro participante alimentou o debate com a realidade que afeta países como a Nicarágua. “Em países com ditaduras centralizadas, a única coisa que podemos fazer é documentar, coletar informações e criar memória”, disse Carlos Fernando Chamorro, fundador e diretor Confidencialmente, atualmente exilado na Costa Rica. Martínez Arens complementou esta explicação explicando o uso de boatos como parte de uma estratégia que ajudou a extrema direita espanhola, liderada pelo Vox, a criar “narrativas muito poderosas”. “É incrível como a população jovem de Espanha passou do centro, e em certas circunstâncias também da esquerda, para a direita em apenas 5 anos”, disse, lembrando que algo semelhante aconteceu noutros países como a Alemanha, os Estados Unidos ou a Argentina, e que em Espanha os meios de comunicação de direita se moviam cada vez mais para a direita. “O que precisamos de fazer é voltar aos princípios”, disse ele, referindo-se à defesa da democracia como um sistema que incentiva a tolerância e o diálogo com aqueles que pensam de forma diferente.
Nessa frente, o diretor do EL PAÍS demonstrou autocrítica. “Os meios de comunicação tradicionais são muitas vezes deixados para trás e a sua presença apenas contribui para o aumento do autoritarismo. Devemos fazer o que sempre fizemos, mas também devemos apontar o dedo àqueles que mentem e usam fraudes para monopolizar o poder, e depois saber como usar as ferramentas tecnológicas para tornar a verdade viral. Estamos cansados de mentiras virais, o nosso trabalho é tornar os factos virais, dados que permitam ao leitor formar o seu próprio julgamento.”
Neste espírito, e em resposta à pergunta de Calderón sobre o funcionamento e as necessidades das redações atuais, Maerker destacou a importância de equilibrar a necessidade de definição de agenda com a verificação da origem da informação. “Às vezes é um pouco revisado, e o que toda a mídia noticia tem uma só fonte”, lembrou. “É preciso ir aos factos, é preciso falar com as pessoas, mesmo com as pessoas de quem não gosta, e é preciso contar o que dizem”, disse Martinez Ahrens, que também nos encorajou a pensar no que os leitores querem e precisam de saber, ou seja, ter um jornalismo sempre atento à atualidade: “Depois de ir aos factos, a partir de diferentes interpretações, não focar apenas nas vozes que estão mais próximas de nós, mas significa dar voz a todos”.
A visão contrasta com uma geração recente de meios de comunicação altamente partidários, que o diretor do jornal de língua espanhola mais lido diz estar a alimentar a ascensão do autoritarismo. “Alguns usaram a longa crise mediática para sequestrar aqueles que parecem ser sérios mas não o são, e outros para criar os seus próprios meios de comunicação. E alcançaram uma eficiência narrativa muito elevada, conseguiram ancorar a sua mensagem e criar uma narrativa que conseguiu colocar-se acima do que os meios de comunicação sérios estão a fazer”, disse, para depois notar que o maior desafio neste universo fractal é “distinguir o joio do trigo”, o jornalismo sério e de qualidade daquilo que não o é. “Devemos aproveitar todas as oportunidades, redes sociais como o TikTok ou o Instagram. O EL PAÍS tem 37 milhões de assinantes em todas as redes”, lembrou. “Alguns meios de comunicação tradicionais têm audiências maiores do que nunca na história, embora devamos compreender que, por outro lado, também têm uma audiência crescente, em audiências específicas e com mensagens negativas próprias”, concluiu.
Contexto social do jornalismo
Calderón também apresentou o contexto político e social em que atua o jornalismo. “Na Nicarágua, o jornalismo de reportagem é proibido. Um colega está preso porque num dos seus programas transmitiu várias imagens da procissão da Virgem Maria, outro porque falou no seu programa de rádio sobre o custo de vida”, explicou Chamorro, que lembrou que a sua redação foi invadida duas vezes pelo regime. É para Martinez Arens que esta realidade passa por adaptar os princípios do jornalismo de qualidade a cada contexto. “Os jornalistas têm razão: muito raramente somos neutros; tomamos decisões com base na seleção de notícias. Mas devemos refinar a escala, determinar quando somos mais agressivos. Por exemplo, na Nicarágua devemos conduzir um jornalismo de neutralidade permanente.” Maerker explicou como esses contextos podem criar pressão adicional no trabalho. “Cada vez que você vai a um lugar, você tem que fazer pesquisas de antecedentes, criar alianças com vozes locais confiáveis, porque o funcionário ou ativista que você considera uma voz confiável pode ser aliado de uma organização criminosa. informações corretas no terreno.”

Sobre a questão da inteligência artificial, Martinez Ahrens foi aberto, mas cauteloso. “Se for utilizado, deve ser transparente para o leitor, alertando-o sobre como e por que foi utilizado. Embora haja muitas expectativas incertas, isso pode ajudar o trabalho. Mas não devemos ser ingênuos e pensar que é uma panacéia, porque pode haver chaves por trás do algoritmo que não controlamos e que podem ser tendenciosas, como aconteceu com outras tecnologias.”