novembro 29, 2025
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À medida que o vento gelado começa a passar pelas frestas do Cine Amor, algo mais pulsa na atmosfera: esta é a última vez. Jorge Sanz assumirá o cargo de diretor do Festival de Cinema de Aguilar.37 edições, 37 de dezembro, em que a cidade o pequeno virou gigante graças à gentil teimosia de um homem que nunca quis ser o personagem principal, mas que acabou ficando sem meios de proteção. Ele diz isso com a naturalidade que sempre o acompanhou. “Vou sair silenciosamente, porque estou saindo do festival fazendo barulho.”

Como quem deixa uma bola perfeita na grande área para que o próximo que chegue possa chutar para o gol e marcar, mas Jorge não sai completamente – promete dar uma mãozinha no começo, estar lá se for preciso – mesmo sabendo que é hora de se afastar. “Você precisa ser capaz de sair dos lugares com o mesmo amor com que entrou neles.” Ele repete, lembrando-se do conselho que seu pai lhe deu, com a voz um pouco embargada. E Jorge teve muitos anos, muitas aventuras e muito trabalho para garantir que Aguilar de Campoo e toda a sua região se destacassem no cenário cinematográfico espanhol.

Este ano o festival regressa de 28 de novembro a 7 de dezembro com o mesmo vigor de sempre, talvez com uma pulsação mais profunda. Quarenta curtas-metragens na seleção oficial (vinte espanholas e pela primeira vez metade delas dirigidas ou codirigidas por mulheres); 21 jogos de Castela e Leão, que serão inaugurados no primeiro fim de semana; quatorze visões do mundo rural na seção de De Campo; riso em Ríete tú e ternura infantil em MiniAguilar. As Águias de Ouro irão para Luis Zajera, Fernando Cayo, o diretor belga Olivier Smulders e o ator de Valladolid Oscar de la Fuente. Nomes que entram na lista de impossíveis: Pedro Almodóvar, família Bardem, Concha Velasco, Antonio Recines, Maribel Verdu, Alfredo Landa… 70 águias que andavam por estas ruas como quem anda pela própria casa, cumprimentando os vizinhos, dando autógrafos em guardanapos e abraçando as avós que as viam na TV.

Jorge chegou a Aguilar há mais de quatro décadas vindo de Valladolid, e a cidade deu-lhe algo que não se compra: um público que ama o cinema como alguém ama a vida. Havia dois cinemas com programação diária – “Amor” e “Kampoo”, um cineclube, as pessoas amamentavam na cadeira, porque ir ao cinema era tão natural quanto respirar. Quando nasceu a então chamada Semana do Cinema Espanhol, em 1989, esse terreno fértil já estava fervendo. Jorge lembra-se dele com a voz trêmula de quem se lembra dos mais velhos. “Era como o filme Cinema Paradiso, mas na versão Palencia”, lembra ele rindo. “Nesta altura, as crianças entravam sorrateiramente no cinema porque o dono dizia que precisavam de arranjar um hobby, as mães saíam da missa e compravam o bilhete para a matiné. O cinema era um ritual, era uma comunidade, era oxigénio”, admite com carinho Jorge Ikalu.

Foi daí que tudo veio. Ele nunca quis um festival de poses ou tapetes vermelhos impossíveis. Ele queria um lugar onde os novos cineastas – aqueles que chegavam no trem com uma cópia, recém-saída do laboratório, uma mochila cheia de nervosismo e olhos cheios de sonhos – sentissem como se alguém os estivesse realmente observando. É por isso que tomaram duas decisões ousadas que consolidariam para sempre o DNA da AFF: especializar-se em curtas-metragens e pagar taxas de seleção de elenco.

“Era a nossa maneira de dizer a eles: seu trabalho é valioso, mesmo que você ainda não saiba disso.” Muitos dos que hoje preenchem cartazes de longas-metragens passaram por aqui com o “bolo” debaixo do braço. O Festival de Cinema de Aguilar foi a sua primeira janela e, quase sempre, o seu primeiro abraço.

Este ano, como presente póstumo a alguém que tanto amou o festival, o prémio de Melhor Curta-Metragem Espanhola será nomeado em homenagem a Ramon Margareto, o realizador e artista que foi diretor artístico, júri e amigo até nos deixar em maio. O Cine Amor vai acolher uma exposição das suas pinturas e filmes, em rotação, porque em Aguilar ninguém desaparece completamente. E o Hospital Rio Carrion exibirá curtas-metragens – duas sessões para quem não pode sair dos quartos – porque Jorge sempre acreditou que a cultura deve chegar a todos os cantos, principalmente aos que mais precisam.

Sala de aula da AFF vai se transformar em escola primária depois de 4.500 estudantes do ensino secundário terem visitado o cinema no ano passado. O pavilhão industrial continuará a ser aquele lugar mágico onde crianças de vinte e poucos anos ficam cara a cara com vencedores de Goya como Pelayo Gutiérrez ou Alberto Valcárcel. E depois de encerrar, Marwan cantará para que a despedida soe como a vida, e não como o fim.

Mas o verdadeiro protagonista deste episódio não estará na tela. Ele estará nos bastidores, com seu sorriso cansado, e fará com que tudo funcione como um relógio suíço pela última vez. Jorge fala da sua tripulação da mesma forma que fala das crianças: mais de cinquenta pessoas que remaram juntas quando a cozinha do hotel pegou fogo, quando os canos do cinema estouraram por causa da geada, quando a pandemia chegou e tiveram que transmitir na TV, nos centros esportivos e até nas TVs dos bares. “A palavra 'resiliência' realmente resume o que alcançamos”, diz ele, com os olhos lacrimejando de emoção. “Tudo já aconteceu conosco, mas quando todos remam na mesma direção, nenhuma tempestade pode nos deter”, acrescenta.

Ele sai calmamente e repete. Tranquilo porque sabe que está saindo do festival em boas mãos. Está tranquilo porque o público continua a encher os teatros (no ano passado 11 mil espectadores), porque os realizadores continuam a lutar pelas chegadas, porque os políticos perceberam que isto é um tesouro. Não se preocupem, o ADN está seguro, porque ao longo de todos estes anos Jorge e a sua equipa conquistaram o respeito absoluto do público, a proximidade com os autores, o orgulho de ser um festival pequeno a disputar a Liga dos Campeões dos grandes. “É ótimo saber que você é pequeno”, diz ele, e diz isso sem retórica, como se alguém estivesse falando a verdade que muitas vezes salvou sua vida.

Mas sem dúvida, quando surge a questão do que mais lhe vai faltar na organização, preparação e execução do Festival, ele hesita por um segundo e responde com a voz entrecortada. “Este é o último abraço. Quando o festival acaba e todos nos abraçamos… Está tudo aí”, admite entusiasmado. Este ano os abraços serão diferentes. Mais longo. Mais forte. Haverá lágrimas que não precisam ser explicadas e algumas risadas nervosas para mascarar as emoções.

Ele deixa apenas um conselho para quem vem depois dele, mas o fala com o peso de trinta e sete de dezembro acima. “Seja honesto. Deixe-o procurar por muito tempo. Não tenha pressa. “Não quebre o baralho.” E para as pessoas que ele tanto ama, apenas um pedido amoroso. “Que ele nunca o abandone. A cultura é a única coisa que nos poupa as horas dos psiquiatras.

Jorge vai embora, embora um pequeno espinho permaneça em sua memória. Não sabendo, diz ele, qual a melhor forma de vender o terreno. “Sinto um pouco de desconforto porque não sabíamos, não sabíamos por que não podíamos fazer isso”, diz ele. “Não porque não quiséssemos. O facto de as montanhas palentinas terem sido transformadas num cenário natural de filmagem. Fala-se muito sobre isso agora, mas nos primeiros anos, desde que Mar del Luna foi filmado aqui na quinta edição, sempre pensámos que toda a zona de Aguilar e os seus arredores eram um óptimo local para filmar”, recorda.

Para Jorge, o ambiente natural de Aguilar e da sua região é um verdadeiro paraíso natural, condições ideais para a filmagem de grandes projetos cinematográficos. “Lembro-me de muitos diretores me dizendo: ‘Olha, cenas de Titanic poderiam ter sido filmadas em Aguilar Swamp, e O Senhor dos Anéis poderia ter sido filmado em Turnings’”, lembra ele com carinho. “Obviamente me parece muito distante, mas temos uma área mineira, estamos muito perto de Santander, da nossa montanha ou da Terra do Fogo. Cenários de inveja”, explica emocionado a Ikal.

Quando as luzes se apagam no cinema Cine Amor no dia 7 de dezembro Pela última vez sob sua liderança, Jorge Sanz fechará a porta com cuidado, como quem fecha os olhos de quem ama muito. Ainda estará frio lá fora. No seu interior ficará o calor de trinta e sete anos de cinema, de risos, de abraços, de curtas-metragens que ensinaram várias gerações a sonhar. Fica a memória de um homem que nunca pediu holofotes, mas iluminou toda a cidade.