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Depois do golpe cinematográfico desferido pelos Estados Unidos a Nicolás Maduro e ao seu regime, Gustavo Petro teve uma clara oportunidade de finalmente se tornar o homem que deixaria a sua marca na história colombiana. Não houve e não haverá melhor momento nestes três anos e meio de governo. Mas só ele pode tomar a decisão que o libertará do destino que odeia – ser um presidente irrelevante – e tornar-se aquilo com que sonha: um herói nacional.

Claro que, para isso, Petro deve primeiro compreender que o seu heroísmo não será o de um líder coroado com os louros do triunfo e da conquista, mas que o aplauso nacional virá ao assumir o papel que o filósofo Hans Magnus Enzesberger definiu em 1989 como o do “herói da retirada”, personagem que ele estabeleceu em ensaios em que retratou figuras como Mikhail Gorbachev e Adolfo Suarez, tais como eram: políticos. líderes. que não deixaram marcas pessoais nos seus países, mas foram necessários para desmantelar estruturas pesadas que espalham a desesperança e a paralisia.

O escritor Javier Cercas explica que “herói de saída” é aquele que ultrapassa as páginas da história, abandonando seus cargos e se prejudicando, ou seja, é um herói que constrói sua lenda, tendo a capacidade de ir contra suas ideias, traindo-se, mas demonstrando o mais elevado status moral porque coloca o bem-estar de seu país acima do seu.

Gorbachev é um herói da retirada que, como Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, destruiu a União Soviética. Suarez é o herói da retirada, que, tendo sido nomeado para manter uma falsa democracia franquista numa Espanha que ainda estava de luto por Franco, foi capaz de ir contra os seus valores políticos e fazer nascer uma democracia total onde até os comunistas tinham um lugar. Ambos são heróis, embora ambos tenham traído um ao outro.

Com a queda de Nicolás Maduro, chegou o momento de Gustavo Petro decidir se quer acabar com o seu governo como ele foi – uma série de actos de corrupção, erros políticos, bravatas, reformas mal geridas, tudo temperado com o encanto transparente de Armando Benedetti – ou tornar-se um “herói de saída” colombiano ajudando com o seu desejo de finalmente pôr fim à notória raquete de engano e roubo por parte dos colombianos que eventualmente até o arrastaram para o seu poderoso e poluente furacão.

A receita é simples e Donald Trump já o ajudou com o primeiro ingrediente: libertá-lo de Maduro. Agora Peter deve fazer o resto, que nada mais é do que uma espécie de mea culpa com o qual poderia expor aqueles que durante estes anos o mantiveram cativo a uma campanha política que o tornou presidente, mas também o tornou refém.

O “Herói da Conclusão” poderá contar ao país qual é o segredo mágico que deverá render votos a Armando Benedetti em todo o país. O “herói da dedução” poderia nos contar como as agências governamentais saem de férias para expulsá-los. O “Herói do Cuidado” também poderia nos contar sobre sua insistência em manter Roa e Sarabia vivas, apesar do quanto nos fizeram sofrer. O “Herói do Cuidado” vai despir um país político que nada faz senão cobrir todos com o mesmo cobertor. Mas só ele pode decidir ser um herói ou um dos vilões.

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