Quase um ano se passou e Sandra, que pede para proteger sua verdadeira identidade, ainda hesita em expor o homem que a estuprou há três anos. Ela tinha acabado de atingir a maioridade quando conheceu seu ex-companheiro, um homem 10 anos mais velho que ela, que a princípio parecia amigável e atencioso. Até que um dia ele a levou para um quarto de hotel e a forçou a fazer sexo anal com ele. “Ele me obrigou a fazer isso”, diz ela.
Quando aconteceu novamente, ela pediu ajuda à tia porque pensou em denunciar, mas a resposta que recebeu a encheu de ainda mais medo. “A minha tia disse-me que muito provavelmente a denúncia não seria processada e que ele poderia processar por difamação”, explica.
O caso de Sandra reflecte a realidade da maioria das mulheres no Peru, onde o seu próprio presidente foi acusado de violação sexual. Um país onde um estupro é denunciado a cada 40 minutos, segundo dados oficiais do Centro de Atendimento de Emergência à Mulher e à Família (CEM). Após diversas consultas ao portal de transparência do ministério, o EL PAÍS descobriu durante sua investigação que das 73.747 denúncias registradas por estupro entre 2017 e setembro de 2025, apenas 280 receberam sentença. Isso representa apenas 0,38% dos casos.
Mulheres como Sandra não aparecem nestas estatísticas porque optam por não denunciar por medo de serem “culpadas, interrogadas e sancionadas”, diz Amir Ortiz Arica, advogado especializado em violência baseada no género e diretor da Ação para a Igualdade.
O medo de retaliação é outro fator do silêncio. É assim que ele explica Elena Larrauri Pihoan, professora de direito penal e criminologia. “Estes homens querem vingar-se das mulheres por terem de enfrentar a lei (…). Esta é uma traição que merece punição”, escreve num artigo intitulado Por que as mulheres vítimas de abuso retiram as suas queixas?
Depois de ouvir a tia, Sandra mudou de ideia. “Acho que não devo mais denunciá-lo”, disse ela a si mesma.
O acusado chega ao poder
Em 30 de dezembro de 2024, o atual Presidente da República, José Geri Ore, foi acusado de violação sexual por uma mulher que compareceu à sua festa de Ano Novo num clube de verão na província de Casma, norte de Lima. Geri era então deputado da facção Somos do Peru.
O promotor Tomas Galvez, investigado por ligações com a organização criminosa Los Cuellos Blancos del Puerto, abriu o caso em apenas oito meses. Entre as provas que apoiaram a sua decisão estava um teste de ADN que não correspondia a Jeri, um argumento que, de acordo com uma decisão do Supremo Tribunal de 2018, não é convincente em casos de violação sexual.
Sobre esta resolução, o advogado de Geri, Ricardo Caldas, afirmou durante a investigação que as conclusões do STF foram “opiniões técnicas e dogmáticas”.
Outro arguido, juntamente com Geri, Marco Cardoza Hurtado, que também esteve presente na reunião em Kant, não prestou depoimento, não foi preso e acabou por fugir para França em Fevereiro passado. Um mês depois, as autoridades ordenaram sua prisão.
“Apresentar uma denúncia de agressão sexual não significa necessariamente que o acusado seja inocente. Em muitos casos, isso se deve à falta de provas e depoimentos”, afirma Julissa Mantilla, advogada e ex-presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
No caso de Geri, por exemplo, os promotores não analisaram a correspondência do presidente após a denúncia, ele não recebeu avaliação psicológica e o presidente não cumpriu uma ordem judicial para tratamento de “controle de raiva e patologias sexuais”.
“O meu patrocinador nunca foi notificado desta decisão”, diz Caldas, explicando porque é que o presidente não estava presente.
Mas para a antropóloga de género Angélica Motta, o caso de Geri é “um exemplo muito claro de como a impunidade funciona como uma rede de lealdade” em casos de violência baseada no género. “Um homem pode ter opiniões predatórias e tornar-se presidente sem perturbar a classe política. Isto diz às mulheres afectadas que não há esperança, que nada irá acontecer”, afirma ela.
Funil judicial
Os dados de transparência coletados durante esta investigação mostram que 56,5% das denúncias denunciadas ainda estão na fase de investigação preliminar, que é exatamente a fase em que foi feita a denúncia contra Geri. Além disso, nos nove anos analisados, 27% dos casos foram arquivados.
Uma fonte do Ministério Público, que falou sob condição de anonimato, explica que o principal ponto para o Ministério Público abrir um processo são os “elementos de uma condenação”, mas o aparelho de Estado impede que sejam obtidos. Um exemplo são as celas Gesell, uma sala de duas salas separadas por vidro, projetada especificamente para o interrogatório de pessoas que foram vítimas ou testemunhas de crimes durante os julgamentos. No Peru não há número suficiente para lidar com uma média de 9.000 casos de violação por ano. Outro exemplo é o Instituto de Medicina Legal, que está superlotado devido ao número limitado de funcionários. Ou como os testemunhos recebidos fora do prazo são impiedosamente rejeitados.
“Quando o depoimento da vítima é recebido fora do prazo estabelecido, ou seja, após quatro meses, durante os quais a investigação preliminar pode ser prorrogada, a contraparte pode exercer pressão, dizendo que o caso deve ser arquivado”, afirma fonte do Ministério Público.
Os promotores também recebem bônus e promoções pela apresentação de processos; mas não quando decidem formalizá-los. “Esta declaração é considerada uma ‘declaração material’ e que acrescenta pontos”, afirma a mesma fonte.
Do total de denúncias, apenas 556 chegaram à fase de processo judicial, o que significa que mais de 99% das vítimas ainda não puderam ser julgadas perante aqueles a quem chamaram de agressores.
“Nas investigações fiscais, a falta de consentimento não é entendida como elemento central para a apuração do crime. Quer-se ver roupas íntimas destruídas, pancadas, hematomas entre as pernas, cabelos arrancados. Se não forem encontrados esses elementos, indicando violência física, o caso é arquivado”, explica Ortiz.
“Eu disse a ele que não queria. Não houve acordo e ele fez isso mesmo assim”, repete Sandra.
Em recentes entrevistas à imprensa, Geri agarrou-se a um resultado negativo de teste de ADN para proteger a sua inocência. Ele também observou que havia “malícia” contra ele. Até agora, nenhum meio de comunicação nacional questionou a razão pela qual o procurador abriu um processo de corrupção contra ele.
“O fato de o promotor Tomas Galvez ter conduzido ou estar conduzindo uma investigação, o que isso tem a ver conosco?” – questionou o advogado Kaldas.
No dia da reunião em Kant, o requerente bebeu pisco puro, adormeceu numa espreguiçadeira e acordou sozinho no quarto, confuso e com a bibidi (camiseta) molhada de Geri ao lado da cama. Sobre esse fato, o presidente disse apenas que o assunto estava “em investigação”.
Geri não é a única autoridade suspeita de crimes sexuais. O Presidente do Conselho de Ministros, Ernesto Alvarez, também foi acusado de violação e rapto.
“Essa é mais uma prova de que se trata de uma corporação que rouba o bem comum e o corpo das mulheres”, afirma a antropóloga Angélica Motta.
Segundo a Dra. Julissa Mantilla, “qualquer pessoa que tenha cometido violência baseada no género” deveria ser impedida de ocupar cargos públicos. “Por solidariedade às vítimas e aos direitos humanos, não podemos agir como se nada tivesse acontecido, como se este não fosse um acontecimento grave”, afirma.
Em abril de 2018, o ex-juiz Cesar Hinostrosa, membro da organização criminosa Los Cuellos Blancos del Puerto, à qual o promotor Tomás Galvez está afiliado, manteve uma conversa telefônica na qual foi ouvido negociando uma redução da pena pelo estupro de uma menina de 10 anos.
O contexto atual levou organizações feministas como Demus, Manuela Ramos e Promsex a denunciar que, ao “esconder queixas”, o Estado peruano está “perpetuando a violência de género” e “reforçando a impunidade”.
Só em Junho de 2024, a líder Awajun Rosemary Pioc Tena relatou que mais de 500 menores da província de Condorcanqui, no Amazonas, foram sistematicamente abusados sexualmente pelos seus professores e diagnosticados com VIH. Os ministros da educação e dos assuntos da mulher da então presidente Dina Boluarte chamaram este facto de “prática cultural”.
“Está sendo reproduzido um sistema em que a violência contra mulheres e meninas é discutida, ocultada e facilitada por instituições estatais”, argumentam as organizações.
Responsabilidade
Segundo Sandra, quando conheceu o ex-companheiro, ele disse que a amava e que deveriam morar juntos. Com o tempo, ela descobriu que ele tinha relacionamentos paralelos. “Eu o confrontei e ele queria me bater e me estuprar”, lembra ela.
O estupro, como diz a antropóloga Rita Segato em seu ensaio “As Estruturas Elementares da Violência”, “é um ato de disciplina, um castigo contra uma mulher que deixou seu lugar”. No Peru, esse comportamento é normalizado e minimizado; e muitas vezes a vítima é culpabilizada por ter sido “sujeitada” à agressão. Sandra se culpa por “permitir” a violência.
“Eles buscam regular o comportamento dos agressores sem entender por que a violência é criminosa se sempre foi utilizada”, explica Segato. “Como você pode saber se está passando por uma situação abusiva se for seu parceiro? Quantas mulheres concordaram em ter relações sexuais onde não houve espancamento ou consentimento?” perguntas do advogado Amir Ortiz.
Quando o processo criminal é tão longo e tedioso, não há incentivo para apresentar uma queixa e prosseguir com o caso. “As vítimas não querem apenas justiça, mas também punição para que possam continuar seus projetos de vida”, continua Ortiz.
E Sandra se pergunta: “Se o presidente Geri está governando como se nada tivesse acontecido, eu me pergunto com quem mais ele fará o mesmo? O que me faz acreditar que minha denúncia terá efeito?