fevereiro 3, 2026
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O relatório Draghi, encomendado por Bruxelas pelo economista e antigo primeiro-ministro italiano Mario Draghi, alerta que se a UE quiser preservar o seu modo de vida, deve implementar um plano de emergência para aumentar a sua produtividade, capacidade de inovação e autonomia estratégica para evitar um maior distanciamento entre os EUA e a China. O relatório Letta, por seu lado, sublinha que o mercado único europeu deve reforçar a sua integração em sectores como a energia, as telecomunicações e os serviços financeiros, a fim de aumentar o seu dinamismo e continuar o crescimento. “Queremos ajudar a tornar possível o que esses relatórios dizem”, diz o presidente da Telefónica, Mac Murtra.

“Das dez empresas tecnológicas mais importantes do mundo, nenhuma é europeia”, sublinhou o executivo na noite de segunda-feira num evento na Fundação La Caixa, da qual é curador. “Se olharmos para o espaço da cibersegurança, todos os produtos de cibersegurança utilizados na Europa, todos os produtos são americanos ou israelitas”, continuou. “A inteligência artificial hoje é um produto chinês ou americano”, insistiu.

Problemas que colocam a Europa em risco de se tornar uma colónia digital e de ficar isolada da tecnologia, concluiu Murtra. Para evitar isso, e para que a Telefónica encontre uma forma de continuar a crescer nesta nova fase, o seu presidente apresenta a empresa como candidata a tornar-se uma das maiores empresas tecnológicas do continente, apoiada pela inteligência artificial e pela segurança cibernética.

Você consegue imaginar quantas empresas de telecomunicações temos na Europa? 38

Marcos Murtra
Presidente da Telefônica

A forma de conseguir isso, acredita ele, é corrigir a fragmentação do mercado. “Existem três empresas de telecomunicações nos EUA. Existem três empresas de telecomunicações na China. Existem três empresas de telecomunicações na Índia. Consegue imaginar quantas empresas de telecomunicações temos na Europa? 38”, respondeu o gestor.

Esta redução do número de empresas de telecomunicações permitirá que empresas como a Telefónica invistam mais em novas tecnologias e infraestruturas de próxima geração, defende Murtra, que assumiu há apenas um ano. “Simplesmente forçando cada país a passar de 4 para 3 operadores, as eficiências libertadas serão gigantescas”, sublinhou: “A Europa precisa de operadores fortes para garantir autonomia tecnológica, capacidade de investimento e controlo sobre infra-estruturas críticas”.

Murtra diz acreditar que os reguladores comunitários apoiam cada vez mais a decisão, embora descarte que será um processo simples ou que possa ser realizado num curto espaço de tempo. O novo plano estratégico da empresa, o primeiro elaborado sob a sua presidência, inclui 32 mil milhões de euros de investimento entre 2026 e 2028, priorizando a tecnologia em detrimento dos fluxos de caixa imediatos.

Ele não está preocupado com o preço das ações e defende o papel do governo nas telecomunicações.

Outra medida do novo plano estratégico foi a redução de 50% nos dividendos para os próximos anos. Os mercados puniram esta restrição desvalorizando as ações da Telefónica em 25%. O seu presidente insiste que não está preocupado com este facto e assegura que deve ser entendido como uma consequência da modernização e competitividade da empresa, e não como um indicador que deverá ditar a estratégia de curto prazo.

O seu principal argumento é que, ao implementar um plano de transformação profunda que dá prioridade aos investimentos tecnológicos futuros em detrimento do dinheiro imediato, é natural que os mercados reajam negativamente.

Por outro lado, o executivo defendeu também o papel dos Estados nas telecomunicações estratégicas e lembrou que tanto a França como a Itália têm participações superiores a 20% nas suas principais empresas. “As telecomunicações são um activo estratégico que requer protecção institucional”, disse ele: “Em Espanha, o Estado detém 10% da Telefónica. Isto não é apenas um negócio, é uma infra-estrutura crítica para a segurança e coesão económica”.

“Reciclar” unidades de negócios “obsoletas”

A Telefónica está finalizando o ERE, que afetará mais de 5 mil funcionários, ou 20% da força de trabalho. A grande maioria dos despedimentos será voluntária, embora possam ocorrer cerca de 160 despedimentos forçados em unidades de negócios internacionais onde a quota acordada com os sindicatos não foi preenchida.

No âmbito do seu abrangente plano de transformação, a Murtra apresentou esta segunda-feira um conceito que considera fundamental para a sobrevivência da operadora: a necessidade de “reciclar” áreas da empresa que perderam valor tecnológico. “Temos que ter consciência do modelo de negócio em que nos inserimos e é por isso que vamos prescindir de unidades de negócio legadas”, disse, sublinhando que esta realidade precisa de ser tratada “de forma profissional, decisiva e, claro, com compaixão e com uma vertente social”.

O presidente da Telefónica também insistiu que a medida não implica uma saída da empresa, mas sim uma reestruturação imposta pelo mercado. “O objetivo da Telefónica não é reduzir nossas atividades, mas reorganizar-nos para nos tornarmos mais competitivos”, explicou. Um gestor ilustrou esse processo com uma mudança na infraestrutura: “Costumávamos investir em cobre, e agora o cobre é uma tecnologia legada, agora temos que investir em fibra, segurança cibernética e inteligência artificial”.

Referência