Ainda estávamos nos recuperando da ressaca do Ano Novo de sábado e estávamos ocupados comprando Três Reis quando a agressão dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Maduro e sua esposa nos pegaram de surpresa. Para nós e para todo o planeta, em pleno Natal, sem nem percebermos. Quatro dias depois, ainda estamos a aceitar a notícia, houve alguns protestos, os governos estão a começar a sair do seu estupor e os democratas dos EUA estão a declarar a sua oposição às ações de Trump.
Talvez dentro de uma semana compreenderemos plenamente a gravidade do ocorrido e começaremos a agir (nas relações internacionais, nas ruas ou nos tribunais americanos). Mas nessa altura já será tarde demais e talvez Trump dê mais um passo que nos colocará novamente com o pé esquerdo e retomaremos o ciclo de descrença, estupor e reacção lenta. Talvez seja um ataque ao Irão (há poucos dias ele ameaçou vir em “ajuda” aos manifestantes se fossem reprimidos), um porta-aviões em águas cubanas (“Cuba será algo de que falaremos muito em breve”, disse ontem), uma paz imposta na Ucrânia, ou alguma decisão maluca de política interna. Seja o que for, irá desequilibrar-nos a todos, forçando-nos a segui-lo na sua corrida louca, e a Venezuela será deixada para trás, superada, retirada da agenda, logo esquecida, e Maduro esperará no limbo durante anos, como aconteceu com Assange.