Os atendimentos começaram na madrugada deste sábado. Parentes de presos políticos em diferentes áreas da Nicarágua foram acordados por comissários de polícia que, sem maiores explicações, ordenaram que se apresentassem na prisão logo pela manhã. Alguns telefones já tocavam na noite de sexta-feira, mas só de madrugada as instruções ficaram claras: precisam ir aos presídios porque haverá libertações. “Esta será uma boa notícia para a família”, disse um policial a um parente, segundo diversas fontes consultadas. Pelo menos 20 presos políticos deixaram a prisão, confirmou o EL PAÍS, numa operação que o regime reconheceu horas depois em comunicado oficial.
Mães, esposas e irmãos esperavam em frente aos portões logo pela manhã, principalmente na capital Manágua, na penitenciária Jorge Navarro, mais conhecida como La Modelo. A maioria dos 62 presos políticos confirmados pelas organizações de direitos humanos da Nicarágua foram detidos lá. O clima era inquietante porque não havia listagens oficiais ou confirmações públicas, bastava esperar. A libertação foi realizada por meio de um ato divulgado pela propaganda oficial.
Em 10 de janeiro de 2026, o Mecanismo de Reconhecimento de Presos Políticos na Nicarágua confirmou a libertação de pelo menos 20 presos políticos após verificação com suas famílias. pic.twitter.com/KKnpU88uL3
— Barragens e presos políticos na Nicarágua (@MPresasPresosNi) 10 de janeiro de 2026
Pouco depois das 10h, o governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo emitiu um comunicado anunciando o “retorno às suas casas e famílias de dezenas de pessoas que permanecem sob custódia das autoridades competentes”, sem especificar o seu número ou identidades.
O Mecanismo de Reconhecimento de Presos Políticos na Nicarágua também confirmou a libertação de 20 presos políticos, mas continua a analisar novos casos. As vinte pessoas “já saíram dos centros de detenção e regressaram às suas casas após períodos de detenção arbitrária que tiveram um impacto profundo sobre elas e as suas famílias”, afirmou a organização não governamental que contabiliza as prisões políticas na Nicarágua.
Ao contrário de outros casos, a administração sandinista também organizou uma cerimónia oficial de entrega, na qual funcionários do governo apresentaram a libertação como um gesto humanitário e acompanharam a libertação dos presos políticos juntamente com as suas famílias num formato cuidadosamente controlado.
A libertação dos presos políticos ocorreu um dia depois de a Embaixada dos EUA em Manágua ter emitido uma mensagem invulgarmente contundente: “Mais de 60 pessoas continuam detidas injustamente ou desaparecidas” na Nicarágua. A declaração comparou a situação na Nicarágua à da Venezuela, que Washington acredita ter sido libertada após a queda de Nicolás Maduro, e terminou com a frase inequívoca: “A paz só é possível com liberdade”.
A Venezuela deu um passo importante rumo à paz ao libertar um grande número de presos políticos. Na Nicarágua, mais de 60 pessoas continuam detidas injustamente ou desaparecidas, incluindo pastores, líderes religiosos, doentes e idosos. A paz só é possível com liberdade! https://t.co/XKoDmuvNJ8
– USEmbassy Nicarágua (@USEmbNicaragua) 9 de janeiro de 2026
Embora a declaração do regime não mencionasse os Estados Unidos ou a Venezuela, o momento era revelador. A partida de presos políticos para a Nicarágua ocorre no meio de uma remodelação regional aberta após a derrubada de Maduro em Caracas, há uma semana, e em meio a sinais crescentes de pressão de Washington sobre os regimes aliados em Manágua e Havana. Na sua versão oficial, Ortega e Murillo garantiram que esta medida é “um símbolo do nosso compromisso contínuo com o encontro, a paz e o direito de todas as pessoas à coexistência respeitosa e pacífica da família e da sociedade”.
No entanto, o contexto interno revelou-se o oposto. Após a queda de Maduro, o regime da Nicarágua permaneceu em silêncio durante 14 horas antes de responder com três declarações mornas. Acionou então uma fase de alerta máximo: duplicou a vigilância nos bairros, reforçou o controle das redes sociais e registrou mais de uma dezena de denúncias sobre as prisões de pessoas que celebravam publicamente o colapso do chavismo. Assim, a libertação da prisão foi acompanhada por um reforço do aparelho repressivo.
As advertências de Washington intensificaram rapidamente esta atmosfera. O senador republicano Rick Scott garantiu que Cuba e Nicarágua “também serão consertadas”, frase que rapidamente se espalhou nos círculos de poder do regime de Ortega. Para os analistas, esta mensagem serviu de catalisador para uma reacção defensiva: libertação parcial no exterior, maior controlo no interior.
Segundo Eliseo Nunez, antigo legislador da oposição e analista político no exílio, os gestos do regime são uma resposta a uma estratégia dupla. “Por um lado, procuram enviar sinais de détente aos Estados Unidos, o que demonstrou que leva a sério estas ditaduras. Por outro lado, reforçam os controlos internos para evitar quaisquer divergências”, explica.
“O que preocupa Ortega e Murillo não é tanto um ataque militar dos EUA, mas uma infiltração bem-sucedida, como aconteceu nas fileiras do chavismo”, argumenta Nunez. A capitulação de Maduro perante o seu próprio círculo, acrescenta, funciona como um espelho inconveniente para um regime que governa o país com menos recursos e menos espaço de manobra. “Se conseguissem fazer isto na Venezuela, onde havia muito mais espaço para distribuir lealdades, na Nicarágua poderia ter sido mais fácil quebrar a espinha das forças de segurança”, diz ele.
Para as famílias, os cálculos políticos ficaram em segundo plano em relação à reunificação. A manhã do dia 10 de janeiro de 2026 foi marcada por abraços discretos e saídas vigiadas sob o olhar atento de autoridades e policiais. Os presos políticos libertados não gozarão de liberdade total, pois deverão comparecer diariamente às delegacias de sua cidade para assinar um documento, que já foi implementado em relação aos demais presos políticos.