Ele poderia ter feito história no futebol, mas fez isso na lei. Antonio Garrigues Walker (Madri, 1934) trocou uma bola por uma toga, numa reviravolta do destino que o levaria a chefiar um dos escritórios de advocacia mais prestigiados do mundo. … existem essas coisas na vida. Embora às vezes você inevitavelmente se pergunte o que aconteceria se…
– O Atlético quase te contratou, mas seu pai mandou você voltar à forma e se dedicar à advocacia. Você se arrepende de não ter se rebelado contra isso?
-Não, não me arrependo, mas às vezes me pergunto o que teria acontecido se meu pai não estivesse naquele momento, o que era bem possível porque ele era embaixador e eu disse sim, aceito?
-E o que aconteceria?
-Que continuaria fazendo isso e tentaria me tornar um bom jogador de futebol. Sempre pensei no conceito de futuro, no que aconteceria se tudo mudasse e se eu decidisse me dedicar ao futebol. Não tenho uma resposta, mas estou pensando nisso.
– Quantas noites você sonhou em levantar um troféu que nunca existiu?
-Bem, a verdade é que o que se chama de sonho não o é. Pergunte-me sim, mas não sonhe com isso.
-O que ele tocou?
-Avançar. Isso é o que eu fiz bem.
– Quando o Atlético tentou contratar você, havia bons jogadores na Espanha.
– Muito tempo se passou. Mas esta foi a vez de Adrian Escudero e Ben Barek. E também de Sarah, Gainsa, Ramallets, Basora e Quincoses, entre muitos outros.
-Quem era seu jogador favorito?
-Alfredo Di Stéfano. Mas como eu não era ninguém, qualquer jogador da Primeira Divisão me parecia muito bom.
-E agora?
-Mbappé. Acho que ele é um jogador com uma personalidade muito especial. E grande capacidade. E Lamin Yamal. São dois grandes jogadores.
– Depois de ler muito sobre você, não tenho certeza quem está mais interessado em você: Real Madrid ou Atlético?
-Ambos. Tive um amor duplo. Por mais perigoso que seja… Mas acima de tudo gosto de futebol.
“Real Madrid e Atlético estão me deixando, com os dois tive um amor duplo, por mais perigoso que fosse”,
-Você costuma ir ao futebol ou é preguiçoso?
-Eu andava muito. Eu gostei. Agora prefiro assistir na TV. Na minha idade me sinto mais confortável assim.
– Na sua opinião, o que o futebol e o direito têm em comum?
-A lei é o que civiliza a sociedade. Dá a cada um o que é seu. E o futebol também se enquadra nesta lei. Exemplo: que os contratos sejam cumpridos. Se houver assinatura, ela deverá ser respeitada. O futebol precisa de uma lei para ter regras de jogo. Assim como existem regulamentos que regem o impedimento. E, tal como no futebol, também pode haver “impedimentos” na lei.
– Claro, menos polêmico. Mudando de assunto, você se uniu a Florentino Perez para fundar um partido político.
– É assim que é. Foi um fracasso espetacular. Não fizemos isso bem. Tendemos a culpar os outros, mas a verdade é que o fracasso deste projeto é culpa nossa. Não transmitimos a mensagem adequadamente e as pessoas não a entenderam.
– Fortaleceu ou rompeu a sua relação com Florentino?
-Tenho um relacionamento muito bom com ele. Nos vemos de vez em quando. Gosto dos sucessos dele, que são muito importantes. Ele é uma pessoa muito séria, muito humana. Como diria Ortega y Gasset, é uma pessoa bem estruturada.
“Gosto do sucesso do Florentino Perez, é uma pessoa muito séria, muito pessoal, muito bem estruturado”
“O que parece ser um invertebrado é uma equipe.”
-Multar. Tudo muda, principalmente no futebol. Existem bons e maus momentos. Precisamos dedicar tempo a tudo.
– O Presidente tem agora que lidar com muitos problemas: desportivos, económicos, corporativos…
-Mas ele fará isso bem. Tudo vai acabar bem, não duvide.
– Seu colega de Barcelona e rival, de quem não somos mais amigos, Joan Laporta, também é advogado, você o conhece?
-Não, mas eu gostaria muito e tenho certeza que nos entenderíamos muito bem.
-Se você deixar de lado o institucional, então no esporte ele é um trote.
– O Barcelona de Guardiola jogou futebol como nenhum outro. Esse time foi um espetáculo, um herói absoluto no mundo do futebol. Todos jogaram tão bem! Foi uma equipe maravilhosa. E agora ainda é uma equipe importante. Ele estará sempre presente, entre os mais destacados.
– Como vai terminar o caso de Negreira?
– Nota, eu não sei. Em primeiro lugar, gostaria que isto acabasse. E assim por diante. Isso está envenenando nosso futebol. E acho que não há outra opção senão cortar custos. Se algo deve acontecer, então deve haver uma sanção.
– Existe justiça no futebol?
-Certamente. Deve ser.
– É justo demitir um treinador porque alguns jogadores não gostam dele?
Se estiverem descontentes com o treinador, obviamente tentarão forçá-lo a sair. Isso também acontece em uma empresa.
-Quem vai ganhar a Liga?
– Não ficarei chateado se ele receber em Barcelona.
-Diga-me uma coisa: se seu filho ou filha lhe dissesse que quer ser jogador de futebol, você faria o que seu pai fez ou os deixaria escolher?
-Em primeiro lugar, tenho que ter certeza de que ele realmente quer ser jogador de futebol. Segundo: alguém deveria me dizer que o menino é bom para o futebol, que vai virar um fenômeno. E aí perguntei várias vezes para ele, você já pensou em tudo?
-E naquele momento…
-No fundo, eu deixaria ele realizar seu sonho.