Em meio à retórica inflamada do regime venezuelano e às crescentes tensões na região, há uma palavra que se tornou incômoda, mas necessária: prudência. Não como sinônimo de passividade ou álibi de silêncio, mas como princípio político elementar que … Nicolás Maduro optou por ignorar o momento em que a Venezuela mais precisava dele. A prudência, entendida como a capacidade de ler a realidade, antecipar consequências e evitar danos maiores, foi substituída por uma lógica de confronto constante que acabou por empurrar o país para um cenário desnecessariamente de alto risco. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, advertiu sem rodeios: “Se Maduro quiser jogar duro, esta será a última vez que o fará”. Esta frase, proferida várias semanas antes dos resultados da votação, não foi nem uma ostentação nem um ataque retórico. Foi um sinal político claro, consistente com o estilo e a doutrina da dissuasão directa que Trump tem adoptado consistentemente na política externa. No dia 23 de dezembro, Maduro decidiu ignorá-la. Este desprezo não foi um ato de bravura, mas sim uma incompreensão do poder e dos seus limites.
Trump nunca optou pela ambiguidade. A sua abordagem ao caso venezuelano combinou pressão, advertência e uma clara janela de saída política: aceitar os resultados eleitorais e facilitar a transição. Para Trump, o problema não era ideológico, mas sim de ordem e estabilidade no hemisfério. Um regime que perde eleições e se agarra ao poder torna-se automaticamente num factor de desestabilização. Com base nesta lógica, a prudência exigia uma correção imediata de rumo. Maduro decidiu aceitar o desafio, convencido de que a retórica anti-imperialista substituiu o verdadeiro equilíbrio de poder. Da Espanha, o líder da oposição Alberto Nunez Feijó acrescentou uma nuance fundamental, salientando que a prudência deve ser acompanhada por esperanças democráticas. A sua declaração marcou um claro contraste entre duas abordagens à Venezuela: a atitude daqueles que entendem o período de transição como uma decisão responsável, e a atitude daqueles que, como o regime de Caracas, preferem o confronto em vez da aceitação da realidade. A partir deste ponto de partida, foi destruído um dos pilares do discurso chavista tardio: a ideia de que qualquer pressão externa constitui uma agressão ilegal.
Esta observação é relevante porque recorda o que muitos debates europeus optaram por diluir: a Venezuela não vive uma crise temporária, mas sim uma ditadura de longo prazo. O país não exige tutela estrangeira, mas sim um futuro sem repressão, apoiado por uma transição democrática clara, verificável e apoiada internacionalmente. Este futuro teve um momento de oportunidade específico e preciso: as eleições de 28 de julho de 2024.
Houve uma falência, o que explica tudo o que se seguiu. O chavismo perdeu. E perdeu para uma alternativa claramente democrática liderada por Edmundo González Urrutia, com o apoio político e moral de Maria Corina Machado. Aceitar este resultado não foi um sinal de fraqueza, mas sim um ato de prudência histórica. Isto significou aceitar uma transição ordenada com garantias internas e externas, apoio internacional e uma solução que evitaria a escalada que agora ameaça directamente milhões de venezuelanos.
Mas esse aviso nunca veio. Maduro escolheu outra coisa: permanecer no poder apesar de ter perdido as eleições. A decisão foi consciente e deliberada. Ao fazê-lo, fechou o caminho político e mudou a natureza do conflito venezuelano. A partir daí, deixou de ser uma disputa interna e tornou-se uma questão de legitimidade com implicações internacionais, especialmente em termos de segurança regional.
É neste ponto que a cautela associada à democracia se torna especialmente desconfortável não só para o regime venezuelano, mas também para alguns sectores políticos na Europa. O atual executivo socialista facilitou a saída do vencedor das eleições da Venezuela, enquanto os Estados Unidos acabaram por expulsar o homem que permaneceu no poder apesar da sua derrota. Deixando de lado as nuances diplomáticas, a mensagem política é devastadora: os vencidos foram protegidos, mas o vencedor ficou sem apoio efetivo.
O papel do governo espanhol foi, na melhor das hipóteses, morno. Defendido por uma prudência incompreendida, decidiu minimizar o conflito, evitar definições claras e recorrer a uma linguagem ambígua, que na prática acabou por favorecer o regime. Este duplo padrão ajuda a explicar o silêncio que assola a tragédia venezuelana há anos. O silêncio face à repressão, a relativização da fraude e a aceitação da ficção da “normalidade autoritária” não impediram o conflito; incubou.
A prudência genuína era mais uma coisa: aceitar o veredicto expresso pelos venezuelanos nas eleições de 28 de julho de 2024. Com este único gesto, Maduro evitaria a escalada, o aumento do isolamento, a tensão militar e o risco direto para os civis. Não haveria qualquer justificação para uma acção militar, não haveria qualquer perturbação do delicado equilíbrio regional, não haveria necessidade de comunicados épicos ou apelos irresponsáveis à mobilização armada.
Até agora, o regime tem falado em soberania e paz, mas apelou ao confronto. Invocou o direito internacional, ignorando o princípio fundamental que o sustenta: a legitimidade democrática. Nenhum Estado pode exigir prudência do mundo e, ao mesmo tempo, empurrar o seu povo para o abismo para apoiar a elite no poder. A soberania não é declarada; é legitimado.
Uma visão que ligue a liberdade e a democracia trará o futuro pacífico que a Venezuela e os venezuelanos merecem. Não existem rotas militares para a estabilidade, nem discursos grandiosos ou prosopoéticos que possam substituir um mandato popular. A prudência não residia na resistência sem fim, mas na capacidade de partir a tempo. Nicolás Maduro não fez isso. E hoje a Venezuela está a pagar o preço desta imprudência que se tornou política governamental.