fevereiro 1, 2026
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Você pode dizer isso mais alto, mas não com mais clareza. O filósofo e educador Gregorio Luri acredita que “o sistema educacional decidiu que a demanda saiu de moda e foi para as academiasonde você paga um instrutor de fitness porque o esforço intelectual é considerado uma ofensa. Lury alertou este sábado para a deterioração do sistema educativo no programa COPE “Converses” da Catalunha e Andorra e apontou diretamente a classe política como responsável pelo que considera uma perda de procura académica, o que tem prejudicado especialmente os estudantes com menos recursos, chegando ao ponto de acusar os governantes de “realizar um ataque cultural aos mais pobres” por promoverem políticas que baixam os padrões académicos.

Coincidiu com a publicação seu último ensaio “A virtude da mediocridade. Pequena filosofia do inacabado” (Ediciones Encuentro)Numa entrevista de rádio à ABC, Lurie defendeu a necessidade de restaurar uma cultura de esforço e partilha de conhecimento. Na sua opinião, esta dinâmica resultou na perda de qualquer valor real da aprovação, e citou como exemplo o facto de milhares de estudantes terem recebido diplomas do ESO em disciplinas reprovadas. Para o pensador, essa tendência destruiu o elevador social que tradicionalmente representava a educação.

O filósofo também alertou sobre as consequências culturais desta situação. Ele enfatizou que a sociedade está expulsando as demandas intelectuais da sala de aula, ao mesmo tempo que reforça essa cultura de esforço em outras áreas, como o esporte. “Tudo o que expulsámos das escolas refugiou-se nos ginásios”, disse. Segundo o seu diagnóstico, se uma cultura comum forte não fosse protegida, a sociedade estaria exposta ao que ele definiu como “idiotice”, entendida como a incapacidade de partilhar o quadro cultural mínimo que permite o diálogo. entre cidadãos.

Críticas à “nova pedagogia”

Lurie também questionou a chamada “nova pedagogia”, que definiu como estratégia de marketing, não inovação real. Segundo ele, o debate atual está reproduzindo discussões pedagógicas que já aconteciam no início do século 20, e a única novidade verdadeiramente nova são as telas.

Nesse contexto criticou como os centros educacionais priorizam o bem-estar emocional em detrimento do conhecimento em suas discussões públicas.. Na verdade, destacou que na publicidade escolar dificilmente aparecem livros ou cenas de aprendizagem acadêmica, predominando imagens de alunos felizes e confortáveis. Confrontado com este modelo, assumiu o papel de professor exigente. Ele argumentou que um bom professor é “um amante ciumento do melhor que um aluno pode se tornar” e insistiu que o aprendizado requer necessariamente esforço.

Proteção de leitura

Ele também enfatizou que a educação deveria ser um processo de mão dupla. O professor teve que se aproximar do aluno, mas o aluno também teve que dar um passo em direção ao conhecimento. Sem esse movimento, alertou, o processo educativo permanecerá incompleto. Nesse sentido, Lurie explicou que chegou a recomendar que alguns pais proibissem a leitura dos filhos. Como já explicado, esta estratégia pretendia mostrar que Não ler significa abrir mão de uma vantagem competitiva sobre quem lê.. Defendeu a leitura como ferramenta intelectual única, capaz, por exemplo, de “turismo intelectual na mente de Kant” e de revelar o contemporâneo em cada pessoa.

Falta de justiça no sistema

O professor listou ainda vários indicadores que, na sua opinião, indicam uma crise estrutural do sistema. Ele ressaltou a decepção com o ensino visível em escassez de professores substitutos em disciplinas-chave como matemática e catalãoe sublinhou que muitas famílias aumentaram os seus gastos com educação extracurricular fora da escola, o que, na sua opinião, põe em causa a real justiça do sistema.

Ele insistiu que o principal problema era a perda de clareza sobre os objetivos da educação. Criticou uma pedagogia que se recusava a definir que tipo de cidadão queria criar. Nesse sentido, denunciou o que considera um ataque à memória, uma das capacidades humanas fundamentais. Ele lembrou a tradição filosófica que coloca memória, compreensão e vontade como pilares do desenvolvimento humano e alertou que sem memória outras faculdades ficavam enfraquecidas.

Para Lurie, a educação moderna levou a um modelo terapêutico que tende a diluir a responsabilidade individual. E fez um último aviso: se a sociedade não proteger o conhecimento e a cultura comum, corre o risco de entregar a sua memória, e com ela a sua identidade, às mãos da ignorância.

O papel provocador do professor

A respeito de seu livro “A virtude da mediocridade. Um pouco de filosofia do inacabado” (Ediciones Encuentro), Gregorio Luri já no título declara o papel provocador do professor. A etimologia da palavra “medíocre” vem dos termos latinos medius (meio) e ocris (montanha íngreme), referindo-se originalmente a quem permanece em uma altura média ou ponto intermediário. O medíocre, defende o autor, é aquele que está a meio caminho do topo e pode regressar à planície, onde uma cerveja fresca e uma espreguiçadeira o aguardam, com uma descida gratificante, ou apostar em chegar ao topo, onde só quem chega consegue a satisfação da subida empenhando-se. Neste ponto, lembre-se que Friedrich Nietzsche disse que “Nas montanhas aprendemos a pensar com os pés”.

Lurie acredita que “a mediocridade é a nossa constituição e devemos aprender a amar a nós mesmos com todas as nossas deficiências, bem como com as nossas virtudes”. Na sociedade atual, ser extraordinário é exigido através do consumo, e a excelência é recompensada em pouco tempo. Segundo o filósofo e professor, “É uma coisa nobre amar a vida incondicionalmente, mesmo que a maldita garota seja uma amante caprichosa.”. Em suma, o homem medíocre carrega dentro de si a semente do que pode ser, do que é possível, e a controla livremente: ascendente ou descendente. Em resposta a uma pergunta sobre o ditado de que a excelência é inimiga do bem, Lurie afirma que “transcender a mediocridade não é excelência, mas mediocridade além da medida”.

Modernidade e pluralidade

Sobre a modernidade, Gregorio Luri argumenta que “hoje o bom é equiparado ao novo, embora o velho, por ser velho, nem sempre seja bom” e destaca que “a percepção tende a ser o que me faz bem”. Ele também alerta que “O esverdeamento da espiritualidade vem da desilusão com o progresso sem fimsobre substituir o bom pelo novo num estado de vida determinado pelos meus desejos. Neste ponto, o filósofo lembra que interpretar o mundo não é fácil e alerta para “os riscos do construtivismo, que defende que tudo foi construído pelo homem, desde o clima ao futuro”.

Quanto à chegada massiva de pessoas de diferentes culturas e tradições que defendem fortemente o pluralismo, existe o risco de perder o senso de importância. Neste ponto, Gregorio Luri adverte que “agora parecemos estar preocupados apenas com o plural, condenando-nos a uma grande tensão, porque quando o pluralismo atinge certos limites, encoraja o individualismo sem encontrar áreas de acolhimento para a comunidade”.

Referência