fevereiro 12, 2026
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O papel da enfermagem mudou significativamente em apenas meio século. De praticantes e ex-policiais, passaram à formação, que no caso dos especialistas pode durar até seis anos. Suas responsabilidades também aumentaram. Mas talvez não tanto quanto seria possível: uma revisão da investigação publicada esta quinta-feira garante que podem substituir os médicos em muitas tarefas sem prejudicar a saúde dos pacientes.

Os investigadores analisaram 82 estudos em 20 países envolvendo mais de 28 mil pessoas atendidas em serviços em que enfermeiros substituíam médicos em consultas de cardiologia, diabetes, cancro, ginecologia e reumatologia, entre outras. Não encontraram quase nenhuma diferença entre os cuidados prestados por um ou outro nos principais resultados, incluindo mortalidade, qualidade de vida, autoeficácia e eventos de segurança.

Não houve diferenças significativas na maioria dos resultados clínicos, mas confirmaram que os prestadores podem alcançar melhores resultados na gestão da diabetes, na monitorização do cancro e na dermatologia. Entretanto, os cuidados médicos tiveram um desempenho ligeiramente melhor nas áreas de monitorização da saúde sexual e aborto medicamentoso.

Esta é uma revisão minuciosa conduzida pela Fundação Cochrane, que põe à prova as ciências da saúde. No entanto, tanto os autores como os restantes profissionais entrevistados reconhecem que tem limitações: baseia-se em grande parte em trabalhos do Reino Unido (39%) e combina diferentes sistemas em que variam a autonomia da enfermagem e o número de especialistas disponíveis.

Apesar disso, a publicação confirma evidências que têm sido repetidas vezes sem conta e que, segundo os próprios autores, podem levar a pensar em políticas de saúde pública que incluam dar maior importância aos enfermeiros como estratégia para reduzir listas de espera em sistemas de saúde colapsados ​​e quando há escassez de algumas especialidades médicas, como é o caso dos cuidados de saúde primários em Espanha.

Timothy Schultz, principal autor e investigador do Flinders Institute of Health and Medical Research, alerta que substituir pessoal de enfermagem não é “simplesmente substituir pessoas”. “Estes serviços requerem formação, apoio e modelos de cuidados apropriados para funcionarem bem, mas as evidências mostram que não há danos para o paciente e podem proporcionar benefícios significativos”, afirmou numa nota publicada pela Cochrane.

Situação na Espanha

Em Espanha, o papel dos enfermeiros aumentou nos últimos anos: as orientações de prescrição expandem a sua competência: podem, por exemplo, prescrever analgésicos e antipiréticos, como paracetamol ou ibuprofeno, para procedimentos protocolares menores; recomendar e autorizar determinados tipos de tratamentos dermatológicos tópicos; indicar descongestionantes ou antitússicos em casos de resfriados; ou, mediante orientação, prescrever medicamentos destinados ao tratamento de ferimentos e feridas, como antissépticos e pomadas antibióticas tópicas.

Uma das indicações aprovadas era o uso de antibióticos para infecções urinárias não complicadas, mas foi paralisado após apelo da Organização Universitária de Saúde.

José Luis Cobos, vice-presidente do Conselho Geral de Enfermagem e presidente do Conselho Internacional de Enfermeiros, diz que é importante esclarecer que o debate em Espanha não é sobre se os enfermeiros devem substituir os médicos, mas sobre “como maximizar o potencial” dos profissionais.

“Avaliação clínica, acompanhamento, sobretudo da cronicidade, solicitação de alguns exames, ajuste terapêutico de alguns medicamentos prescritos. Estas competências podem ser muito bem aprendidas pelos enfermeiros”, enumera Cobos, que afirma que uma mensagem importante da análise é que “não há provas” de que a saúde das pessoas esteja em risco, que os eventos adversos estejam a aumentar ou que haja circunstâncias que as desencorajem de utilizar estas competências.

Segundo Cobos, a abordagem deve ser organizacional e não corporativa: “Esta não é uma guerra entre profissões, mas uma redistribuição razoável e coordenada de responsabilidades”.

Maior autonomia

Paloma Repila, representante do sindicato maioritário dos enfermeiros (Satse), concorda que os modelos precisam de ser adaptados à capacidade disponível. Na atenção primária, ele descreve uma experiência já consolidada: “Processos descomplicados no nível primário em que a enfermeira dá expertise e, dependendo se o processo segue protocolos que ela consegue administrar, ela tem posição finalista, ela não encaminha para o médico”.

Ele dá exemplos específicos: “Quando você tem um resfriado viral, você é tratado por uma enfermeira e não precisa ir ao médico porque faz parte do protocolo deles e eles podem tratá-lo nesse momento e prescrever os medicamentos apropriados. Outro exemplo é uma hemorragia nasal, que uma enfermeira também pode estancar.”

Repila insiste também que não se trata de “substituir” os médicos, mas sim de “assumir a liderança” em processos nos quais os enfermeiros podem assumir responsabilidades. E acrescenta uma nuance importante: “No Reino Unido (onde foi realizada grande parte da investigação analisada) há muito mais enfermeiros por paciente do que em Espanha”.

O Ministério da Saúde estima que faltem 100 mil pessoas para atingir as metas europeias, embora outros economistas da saúde acreditem que este é um número algo exagerado, uma vez que nem todos os países contam o mesmo número do que consideram enfermeiros, e em Espanha o peso do pessoal auxiliar (TCAE) é elevado e compensa parcialmente funções que noutros países são classificadas como categorias intermédias de enfermeiros que aqui não estão.

Referência