janeiro 11, 2026
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A caça às grandes baleias começou muito antes do que se pensava e num local inesperado. Uma nova pesquisa da Universidade Autônoma de Barcelona (ICTA-UAB) mostra que as comunidades indígenas do sul do Brasil já capturavam grandes cetáceos há 5.000 anos. anos, aproximadamente mil anos antes da primeira evidência documental da existência de sociedades do Ártico e do Pacífico Norte.

Até agora, pensava-se que a caça de grandes baleias tivesse tido origem nas sociedades pós-glaciais do hemisfério norte, entre 3.500 e 2.500 anos atrás. Porém, um novo estudo publicado na revista Nature Communications mostra que os moradores da região da Baía da Babitonga (Santa Catarina) já desenvolveram tecnologias especializadas para essa tarefa.

Os pesquisadores analisaram centenas de restos de ossos de cetáceos e ferramentas feitas a partir de ossos de Sambaca, monumentais sambaquis construídos por indígenas na Baía da Babitonga e hoje abrigados no Museu Arqueológico de Sambaca, em Joinville, Brasil. Muitos destes locais já não existem, tornando esta coleção um arquivo histórico único que de outra forma seria impossível de reconstruir.

Azuis e jubartes

A equipe combinou zooarqueologia, análise tipológica e técnicas moleculares avançadas (ZooMS, zooarqueologia usando espectrometria de massa) para estudar ossos e objetos feitos de ossos de cetáceos. Foram identificados restos mortais de baleias francas, baleias jubarte, baleias azuis, baleias sei, cachalotes e golfinhos, muitos com marcas claras associadas ao seu abate. Também foram documentados grandes arpões feitos de ossos de baleia, alguns dos maiores encontrados na América do Sul. A sua presença, bem como a abundância de ossos de baleia, a sua inclusão num contexto funerário e a presença de espécies costeiras fornecem fortes evidências de caça activa em vez de uso oportunista de animais encalhados.

“Os dados mostram claramente que estas comunidades desenvolveram o conhecimento, as ferramentas e as estratégias especializadas necessárias para caçar grandes baleias milhares de anos antes do que pensávamos”, disse Krista McGrath, principal autora do estudo do ICTA-UAB.

Os resultados também fornecem dados ambientais importantes. A presença abundante de restos de baleias jubarte sugere que sua distribuição histórica atingiu áreas muito mais ao sul do que as principais áreas de reprodução atuais na costa do Brasil. “Portanto, o recente aumento de avistamentos no sul do Brasil pode refletir um processo histórico de recolonização com implicações para a conservação. Reconstruir a distribuição das baleias antes do impacto da caça industrial é necessário para compreender a dinâmica de sua recuperação”, diz Martha Kremer, coautora do estudo.

cidades baleeiras

Além de reconsiderar as origens da caça às baleias, o estudo oferece novos insights sobre as economias, tecnologias e estilos de vida das sociedades pós-glaciais ao longo da costa atlântica da América do Sul. Segundo Andre Colonese, autor sênior do estudo, “Este estudo abre uma nova perspectiva sobre a organização social dos povos Sambaqui. Representa uma mudança de paradigma: podemos agora ver esses grupos não apenas como mariscadores e pescadores, mas também como baleeiros”.

Dion Bandeira, arqueólogo brasileiro com mais de 20 anos de experiência trabalhando com os Sambaci, explica que “os resultados revelam uma prática que tem contribuído significativamente para a longa e densa presença dessas sociedades ao longo da costa brasileira”.

Os povos Sambaqui integraram os recursos marinhos nos seus sistemas culturais e desenvolveram uma cultura marítima complexa caracterizada por tecnologias especializadas, cooperação colectiva e práticas rituais associadas à captura de grandes animais marinhos. Esta história indígena não escrita foi preservada através de coleções de museus e do trabalho daqueles comprometidos com a preservação dos sítios Sambacá que escaparam dos efeitos da urbanização do Brasil ao longo dos últimos séculos.

Referência