Infiltrando-se nessa categoria de pessoas de destaque está a comida: os ovos de Lúcio. Tudo se disse sobre o seu criador, e sempre bem, pois Madrid ainda não conheceu um velho estalajadeiro um pouco como aquele dono … Cotidiano Uma vida dedicada à hotelaria com bandeira em Cava Baja, unindo mais diferenças do que uma única herança de infância.
Lá eles não comem ovos: eles se lembram deles. É lembrado como uma frase bem dita ou um silêncio oportuno. Aproximam-se da mesa com uma humildade descarada que dispensa apresentações, porque apenas dois ovos, uma batata frita e uma gema unem o mundo inteiro. Nada supérfluo e ao mesmo tempo tudo. Os ovos de lúcio são chocados com o mínimo de cerimônia. Eles se misturam, como a verdade, lenta e inevitavelmente. Há quem diga que o segredo está no azeite (hoje assustador chama-se EVOO); outros dizem que está nas batatas. O verdadeiro segredo é não querer reinventar nada, mas ao mesmo tempo reinventar tudo. É cozinhar do jeito que você sempre cozinhou, sem pensar demais e sem se passar por um mau provador que sonha ser o consultor de imagem de cada prato. Hoje muitas cozinhas contam com estilistas, por isso Lúcio e seus ovos são uma espécie protegida pela melhor memória.
Além disso, seus ovos são sinônimos de harmonia e felicidade no seu melhor. Uma placa sem muros e sem confronto, um tesouro contra a polarização e a maldade daqueles que procuram nos piorar. Porque entrar no Lúcio não é apenas entrar num restaurante, mas sim num corredor da memória, um corredor por onde passaram políticos, reis, estrelas mundiais, artistas famintos e jornalistas de ressaca. E durante todas essas visitas, Lúcio corre de mesa em mesa, cumprimentando, tirando fotos, quebrando mais gemas e fazendo com que todos que sentam em sua mesa se sintam especiais. A sala de jantar não tem nada do que se orgulhar; observar. Ele viu modas, governos e dietas irem e virem. E ainda está aqui, protegido por alguém que sabe que o mais importante está intocado, e não consigo pensar em outro prato mais importante numa cidade de fofocas e alvoroço constante.
A história do restaurante conta-se sozinha, como histórias que não precisam de moral. Lucio Blazquez começou servindo pratos simples e acabou alimentando a mitologia. Quando você vai até o Lúcio, ninguém está tentando aprender nada de bom: você vem para confirmar o que já sabe. Porque um bom ovo mexido é uma forma de conforto, uma cura para as nossas feridas, um momento quase místico que nos remete a todos os segredos perdidos. A felicidade, queridos leitores, diga-se para evitar confusão, não costuma ser discutida em conferências e não é apoiada por pesquisas suecas. A felicidade aparece em qualquer terça-feira sem avisar em um prato raso. A felicidade vem no primeiro gesto sério: quebrar a gema. Aquele momento em que a cor amarela invade uma área comum é uma lição de vida que não se ensina na escola. Compartilhe sem discursos. Misture sem culpa. Pinte o prato. Mergulhe o pão. Tudo começa aqui.
Aí você descobre que os problemas se resumem a dois: que o pão não acaba e que ninguém tem coragem de lhe fazer muitas perguntas. Falar com os ovos do Lúcio na frente dos olhos não é pecado, mas sim algo bastante comum. Ovos mexidos exigem um silêncio respeitoso – a nossa igreja secular – e de repente o mundo parece bastante bem ordenado.
O Madrid é um sanduíche de lula com espetos de tortilla e yayo servido em um bar antigo. Madrid é Puerta del Sol, Palacio de Oriente, Rua Retiro e Gran Via. Madrid é cativa, notívaga, suicida e charmosa. Madrid é tudo, sim. Mas Madrid são os ovos de Lúcio, e quem não tem a sorte de os experimentar nem sabe o que é Madrid e o que é a felicidade. É semelhante ao que Jabois disse sobre o Real Madrid: todos podem ser felizes. Então as preocupações, as decisões e a salada voltarão. Mas nesse momento curto, intenso e único, a pessoa ficou feliz sem nem perceber. Esta é a única maneira séria de ser.