janeiro 30, 2026
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O câncer e a doença de Alzheimer são dois dos diagnósticos mais temidos da medicina, mas raramente afetam a mesma pessoa. Durante anos, os epidemiologistas notaram que as pessoas com cancro parecem menos propensas a desenvolver a doença de Alzheimer, e aquelas com doença de Alzheimer têm menos probabilidades de contrair cancro, mas ninguém conseguiu explicar porquê.

Um novo estudo em ratos sugere uma possibilidade surpreendente: certos tipos de cancro podem enviar um sinal protetor ao cérebro que ajuda a eliminar aglomerados de proteínas tóxicas ligadas à doença de Alzheimer.

A doença de Alzheimer é caracterizada por depósitos pegajosos de uma proteína chamada beta amilóide que se acumula entre as células nervosas do cérebro. Esses aglomerados ou placas interferem na comunicação entre as células nervosas e desencadeiam inflamações e danos que corroem lentamente a memória e o pensamento.

No novo estudo, os cientistas implantaram tumores humanos de pulmão, próstata e cólon sob a pele de camundongos criados para desenvolver placas amilóides semelhantes ao Alzheimer. Deixados sozinhos, estes animais desenvolvem aglomerados densos de beta-amilóide nos seus cérebros à medida que envelhecem, reflectindo uma característica chave da doença humana.

Mas quando os ratos apresentavam tumores, seus cérebros pararam de acumular as placas habituais. Em alguns experimentos, a memória dos animais também melhorou em comparação com ratos modelo com Alzheimer sem tumores, sugerindo que a mudança não era visível apenas ao microscópio.

A equipe atribuiu esse efeito a uma proteína chamada cistatina-C, que os tumores bombeavam para a corrente sanguínea. O novo estudo sugere que, pelo menos em ratos, a cistatina C libertada pelos tumores pode atravessar a barreira hematoencefálica, a fronteira normalmente estreita que protege o cérebro de muitas substâncias na circulação.

Uma vez dentro do cérebro, a cistatina-C parece ligar-se a pequenos aglomerados de beta amilóide e marcá-los para destruição pelas células imunitárias residentes no cérebro chamadas microglia. Essas células atuam como equipe de limpeza do cérebro, patrulhando constantemente em busca de detritos e proteínas mal dobradas.

Na doença de Alzheimer, a micróglia parece ter sido deixada para trás, permitindo que a beta-amiloide se acumule e se endureça em placas. Em camundongos portadores de tumor, a cistatina C ativou um sensor na microglia conhecido como Trem2, convertendo-os efetivamente em um estado de eliminação de placas mais agressivo.

Compensações surpreendentes

À primeira vista, a ideia de que o cancro poderia “ajudar” a proteger o cérebro da demência parece quase perversa. Contudo, a biologia funciona frequentemente através de compromissos, onde um processo que é prejudicial num contexto pode ser benéfico noutro.

Neste caso, a secreção de cistatina C pelo tumor pode ser um efeito colateral de sua própria biologia que tem uma consequência útil para a capacidade do cérebro de lidar com proteínas mal dobradas. Isso não significa que ter câncer seja bom, mas revela um caminho que os cientistas poderiam explorar com mais segurança.

O estudo faz parte de um crescente corpo de pesquisas que sugere que a relação entre câncer e doenças neurodegenerativas é mais do que uma peculiaridade estatística. Grandes estudos populacionais relataram que as pessoas com Alzheimer têm uma probabilidade significativamente menor de serem diagnosticadas com cancro, e vice-versa, mesmo depois de ter em conta a idade e outros factores de saúde.

Isto levou à ideia de uma gangorra biológica, na qual os mecanismos que conduzem as células à sobrevivência e ao crescimento, como no cancro, podem afastá-las dos caminhos que levam à degeneração cerebral. A história da cistatina C acrescenta um mecanismo físico a esse quadro.

No entanto, a investigação é feita em ratos, não em humanos, e essa distinção é importante. Modelos de ratos com Alzheimer capturam algumas características da doença, particularmente placas amilóides, mas não reproduzem totalmente a complexidade da demência humana.

Sobre o autor

Justin Stebbing é professor de Ciências Biomédicas na Universidade Anglia Ruskin. Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

Também não sabemos ainda se os cancros humanos em pacientes reais produzem cistatina C suficiente, ou a enviam para o cérebro da mesma forma, para ter efeitos significativos no risco da doença de Alzheimer. Ainda assim, a descoberta abre possibilidades intrigantes para futuras estratégias de tratamento.

Uma ideia é desenvolver medicamentos ou terapias que imitem as ações benéficas da cistatina-C sem envolver nenhum tumor. Isso poderia significar versões modificadas da proteína projetada para se ligar de forma mais eficaz à beta amilóide, ou moléculas que ativam a mesma via na microglia para aumentar sua capacidade de limpeza.

A pesquisa também destaca como as doenças podem estar interligadas, mesmo quando afetam órgãos muito diferentes. Um tumor que cresce no pulmão ou no cólon pode parecer muito distante da lenta acumulação de depósitos de proteínas no cérebro, mas as moléculas libertadas por esse tumor podem viajar através da corrente sanguínea, atravessar barreiras protetoras e alterar o comportamento das células cerebrais.

Para as pessoas que vivem com câncer ou que cuidam de alguém com Alzheimer hoje, este trabalho não mudará o tratamento imediatamente. Mas o estudo oferece uma mensagem mais esperançosa: ao estudar em profundidade até mesmo doenças tão graves como o cancro, os cientistas podem deparar-se com insights inesperados que apontam para novas formas de manter o cérebro saudável na velhice.

Talvez a lição mais surpreendente seja que as defesas e as falhas do corpo raramente são simples. Uma proteína que contribui para doenças num órgão pode ser usada como ferramenta de limpeza noutro e, ao compreender estes truques, os investigadores serão capazes de os utilizar com segurança para ajudar a proteger o envelhecimento do cérebro humano.

Referência