janeiro 27, 2026
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O governo de Donald Trump rotulou Alex Pretty de “terrorista doméstico” horas depois que uma enfermeira foi morta a tiros em Minneapolis durante uma intervenção das forças federais anti-imigração. A acusação não foi uma reação improvisada, mas sim uma tentativa deliberada de estabelecer história: a história de um estado que elimina uma ameaça interna. No entanto, esta história desmoronou à medida que os factos vieram à tona, revelando algo mais grave do que um erro específico: uma estratégia política que combinava poder desproporcional e mentiras institucionais.

Se alguém ainda tiver a menor dúvida razoável sobre como Pretty morreu – incluindo a possibilidade de alguns dos agentes terem sido imprudentes em resistir às ações – os numerosos vídeos que circularam não apenas sobre o evento, mas também sobre sua vida, dissipam qualquer ambiguidade. Longe de serem uma caricatura de Trump, estas imagens mostram um homem dedicado e sereno que se comporta como um patriota no sentido cívico mais exigente: uma enfermeira num hospital de veteranos que via o serviço público como um dever moral.

Fatos conhecidos indicam que Pretty estava filmando uma ação policial sob alta tensão quando foi capturado e morto. Sua morte se junta à de Renee Goode, a segunda pessoa a morrer em Minneapolis em poucas semanas nas mãos das forças federais. Em ambos os casos, a resposta do governo seguiu o mesmo padrão: proteção fechada dos agentes, desqualificação da vítima e circulação de teorias rapidamente refutadas por imagens. Este não é um incidente isolado, mas sim uma evidência de uma mudança alarmante. É importante que fique claro: militarizar as cidades para combater a imigração ilegal não é apenas um erro operacional, mas também uma ruptura conceptual na ordem democrática. As democracias liberais impõem limites estritos ao uso da força a nível interno, uma vez que esta é utilizada contra a sua própria população. Para situações excepcionais, existem mecanismos precisos – estados de alarme, estado de emergência ou estados de emergência – sujeitos a controlo político e judicial. Nada disso corresponde ao que está acontecendo nos Estados Unidos. As forças são desdobradas com lógica militar no espaço civil ordinário, sem contrapeso judicial e sem a assunção de responsabilidades que este tipo de poder exige.

Quando o Estado age desta forma, deixa de proteger a sociedade e começa a opor-se a ela. A luta contra a imigração ilegal não pode ser transformada numa ocupação de bairros, numa demonstração de força ou numa pedagogia do medo. Esta não é uma crítica ideológica à aplicação da lei, mas antes uma defesa básica do princípio liberal de que a coerção interna é sempre um último recurso e nunca um instrumento de propaganda política. O facto de este alerta também provir de sectores conservadores da imprensa americana sublinha o quão institucional e apartidário o problema já é.

A morte de Alex Pretty não é apenas uma tragédia, é um aviso. Se os países democráticos aceitarem que o poder pode ser usado sem limites claros contra a sua própria população, o problema deixará de ser a imigração e passará a ser o próprio Estado. E um Estado que mente para se justificar não fortalece a ordem: corrói-a. O poder legítimo não nasce da intimidação, mas do respeito pela lei e pela verdade. Transformar o cidadão em inimigo e a exclusão em rotina é o caminho mais curto para a desintegração do pacto democrático.

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