Com a aproximação do Dia dos Namorados, vale lembrar que o amor às vezes também tem fim. Mas mesmo que esse projeto de vida comum acabe, os negócios que possam ter surgido nesse período não precisam terminar. Em Espanha, milhares de empresas familiares e escritórios profissionais nascem de paixões partilhadas: são muito comuns casais que constroem empresas do zero ou escritórios de advogados fundados por pais e filhos. Porém, quando o coração se parte, a cabeça deve assumir o controle. Muitos conflitos corporativos surgem de disputas pessoais. Muitos deles surgem entre quem dirige uma empresa com distribuição simétrica de ações. E quando isso acontece, não existem regras escritas. É aí que reside o drama: sem pensar, a clientela foge, a marca é desvalorizada e um juiz comercial acaba desmembrando o cadáver corporativo.
De acordo com o Family Business Institute, quase dois terços das empresas familiares falham quando atingem a terceira geração. As divergências sentimentais agravam os bloqueios quando a propriedade é distribuída 50/50 ou é mantida por administradores conjuntos. Empresas tão bem-sucedidas no setor alimentar como a família vinícola proprietária de Pesquera ou Gullón apareceram em inúmeras capas devido a conflitos entre acionistas familiares.
Maria Teresa Barea, porta-voz do Conselho Geral dos Notários, recomenda “pensar bem e rodear-se de profissionais bem formados” antes que surjam problemas. É fundamental, explica ele, “traduzir os resultados de toda esta investigação em instrumentos jurídicos apropriados”. Etapa para a qual é necessária a figura do notário, visto que este está presente no momento da constituição da empresa.
Evitar problemas futuros, como acontece com quase tudo, muitas vezes requer uma cultura jurídica proativa e aconselhamento especializado. A principal arma para evitar desentendimentos destrutivos são os protocolos familiares ou acordos de parceria. Essas ferramentas gerenciam resultados, avaliações e transferências sem aprofundar as feridas pessoais. Pilar Paris, sócia da Araoz & Rueda, deixa claro: “O pacto estabelece as regras do jogo para rupturas sentimentais, reduzindo as disputas, uma vez que os acordos já foram previamente acertados”. Esses acordos podem incluir disposições de portabilidade (arraste junto) para forçar vendas conjuntas ou relacionadas (siga-se) para proteger as minorias.
Para evitar a paralisia da empresa quando os proprietários se enfrentam, Maria Teresa Barea recomenda o estabelecimento de disposições legais especiais, como “vendas forçadas”, segundo as quais um pode oferecer-se para comprar a parte do outro e, se o preço for injusto, rescindir a oferta. A intervenção de peritos independentes também pode ser necessária para estabelecer o custo. “O ideal seria elevar essas disposições ao nível de estatutos corporativos”, afirma. O facto de figurarem em documento público inscrito no Registo Comercial “permite-lhes resistir erga omnes (na frente de todos) no meio do caos”, acrescenta Barea. A notária insiste na necessidade de “tornar tudo um assunto público”, incluindo os registos familiares, o que na sua experiência é raro, tendo apenas autenticado dois registos em 16 anos, que incluem desde os chamados “acordos de cavalheiros” até alterações legislativas.
Nos escritórios de advocacia, que são sociedades profissionais, o problema é ainda mais delicado: a clientela é muito pessoal, e em caso de dissolução não há transferência automática da carteira. A Lei das Sociedades Profissionais exige perícia e aquisição obrigatória das ações do sócio divisor. A forma como os profissionais se divorciam não só tem um impacto imediato na reputação, mas também terá um impacto a longo prazo na rede, nos clientes e na indústria. Sair de casa com estilo é um investimento no futuro e uma oportunidade de demonstrar a integridade e a ética profissional que devem estar no DNA de um bom advogado.
Sem rede
As letras miúdas dos acordos de crise determinam se a ruptura será ordeira ou traumática. Sem proteção adequada, o estresse emocional aumenta, ameaçando os negócios e os relacionamentos pessoais.
A advogada Pilar Paris está convencida de que, mesmo que não seja uma tradição enraizada nos nossos protocolos sociais, antecipar o pior cenário “contribui para a criação de uma atmosfera de paz social e para a criação de um mecanismo equilibrado de saída ou desintegração que coloque os interesses e a continuidade do negócio acima de quaisquer outras preocupações”. Um cenário com regras sempre aplicáveis e medidas recíprocas.
Se a prevenção falhar, nem tudo estará perdido. Francisco Ruiz Risueño, secretário-geral do Tribunal Arbitral Civil e Comercial (CIMA), está empenhado numa “mediação neutra e confidencial para discutir soluções ou avaliações acordadas, promovendo acordos sem os impor”. Quando os acordos não atingem seu objetivo e é necessário recorrer a terceiros para consertar pratos quebrados, “a arbitragem é mais flexível e especializada que os tribunais arbitrais. Além disso, as decisões periciais vinculantes preservam ao máximo o negócio”, ressalta. Aqui o especialista é claro: “O objetivo não é impor uma solução, mas ajudar a construí-la e evitar que o conflito destrua o que ainda pode ser reorganizado”.
Em última análise, como diz Ruiz Risueño, a chave é ter a compostura para “transformar a dor em solução”. E quando a porta se fecha, a famosa frase de Oscar Wilde sempre pode ajudar: “Algumas pessoas criam felicidade onde quer que vão, outras – sempre que vão”.
Roteiro da vida
Os advogados sabem como evitar guerras nas empresas familiares. “Quando o luto é misturado com incerteza jurídica e queixas e queixas comparativas acumuladas, cria-se o terreno fértil perfeito para conflitos”, afirma Delia Rodriguez, fundadora da Vestalia Abogados. O advogado defende iniciar o caminho comum “desenvolvendo um roteiro vital”. Para isso, explica, é necessário fazer “uma reflexão pessoal e ancestral honesta sobre a sua própria vida, a sua família real (não a ideal) e o legado que pretende deixar não só economicamente, mas também emocionalmente”.