Depois de perder o peso de acontecimentos históricos como Genebra ou Frankfurt, Bruxelas conseguiu ocupar este lugar com uma proposta mais pragmática, mais próxima do mercado real. Não se trata apenas de protótipos futuristas, mas de modelos que chegarão às concessionárias no curto e médio prazo, muitos dos quais definirão o ritmo comercial para 2026.
O Salão Automóvel de Bruxelas mostra mais uma vez claramente quais são as prioridades da indústria: eletrificação progressiva, desenvolvimento do formato SUV e atenção crescente às necessidades específicas de indivíduos e profissionais. Em comparação com outros eventos mais voltados para o espetáculo, a feira belga tornou-se mais uma vitrine de produtos, com marcas exibindo o que já têm ou estão prestes a ter na rua.
Neste contexto, o Stellantis joga em casa. O grupo, que reúne algumas das marcas omnicanal mais relevantes do continente, chega a Bruxelas com uma presença massiva e uma mensagem clara: a transição para a eletricidade é agora uma realidade industrial.
Stellantis implanta todo o seu arsenal europeu
Peugeot, a espinha dorsal do grupo
A marca que melhor simboliza esta ofensiva é a Peugeot, que será apresentada no 102.º Salão Automóvel de Bruxelas com uma gama de modelos quase completa e vários pontos de interesse estratégico.
O personagem principal é novo Peugeot 408sedã, que a empresa francesa define como um crossover compacto do segmento C, uma fórmula que rompe com as classificações tradicionais e busca atrair um cliente que deseja design, eficiência e diferenciação sem dar o salto para um SUV convencional.

Os veículos comerciais também desempenharão um papel de destaque no espaço ProOne, com a Peugeot apresentando soluções específicas para profissionais, um segmento-chave do negócio do Grupo Stellantis.
O público belga poderá ainda conhecer o Peugeot E-208 GTi, uma interpretação eléctrica de um dos ícones desportivos da marca, bem como os mais recentes desenvolvimentos do Peugeot 208 com design mais moderno e novas funções de volante e painel de instrumentos digitais, bem como o Peugeot 2008, que estreia com novas assinaturas luminosas, jantes de liga leve e grelha mais larga.
Completam a exposição o Peugeot 308 e a sua versão elétrica, o E-308, o Peugeot 3008, que apresenta a versão E-3008 Dual Motor com dois motores elétricos e tração integral, e o Peugeot 5008, cujo E-5008 já está a receber encomendas para uma versão 100% elétrica, com autonomia até 668 quilómetros na variante de longo alcance.
“A Peugeot demonstrou um forte impulso comercial desde o final de 2024 e verá um crescimento muito forte em 2025. No Salão Automóvel de Bruxelas de 2026, a Peugeot leva muito a sério o seu papel de marca icónica”, sublinha a empresa.
Opel: rigor alemão e eletrificação total
A outra grande aposta da Stellantis é a Opel, que está a usar Bruxelas como plataforma para reforçar o seu reposicionamento tecnológico. A marca alemã apresenta os novos Opel Astra e Astra Sports Tourer em estreia mundial, melhorias de design e uma oferta mecânica claramente focada na eletrificação.
A par destes, a Opel apresentará o novo Grandland elétrico, incluindo versões com tração integral, consolidando a sua estratégia de oferecer modelos totalmente eletrificados sem abdicar da praticidade que sempre definiu a marca.

Citroën: conforto, design e acessibilidade
No caso da Citroën, o Salão Automóvel de Bruxelas confirma a sua aposta numa mobilidade mais acessível e orientada para o conforto. Modelos elétricos compactos, novas interpretações do SUV urbano e protótipos de interiores modulares marcam presença destinada a um público amplo que prioriza o uso diário e um preço razoável.
A Citroën posiciona-se assim como um dos principais intervenientes na democratização dos veículos eléctricos, discurso que é particularmente relevante em mercados como o da Bélgica.
DS Automóveis: eletrificação premium
A vertente mais ambiciosa do grupo pertence à DS Automobiles, que traz para Bruxelas as suas mais recentes ofertas eletrificadas no segmento premium. Design, materiais e tecnologia unem-se numa gama que pretende destacar-se no universo Stellantis e competir com as tradicionais marcas premium europeias.
Fiat: retorno ao coração do mercado
Por fim, a Fiat confirma o seu regresso ao coração do mercado europeu com modelos citadinos e compactos eletrificados, incluindo o tão aguardado elétrico Grande Panda, uma interpretação moderna de um dos nomes mais populares da marca italiana, pensado para a mobilidade urbana e acessível.
Crossover e eletrificação: o pulso do mercado
O Salão Automóvel de Bruxelas não só apresentará produtos já anunciados, mas também apresentará estreias de novos fabricantes e tecnologias que apontam para novas formas de compreender a mobilidade urbana e suburbana. Por exemplo, o fabricante chinês Leapmotor planeia lançar o seu SUV elétrico B03X na Europa, concebido para competir em segmentos dinâmicos onde a eficiência e o espaço interior são fatores-chave.
Modelos como o Mazda CX-6e, construído na China, ou carros-conceito como o Citroën Elo, com configurações interiores flexíveis, demonstram a amplitude do espectro automotivo atual, onde não só os motores elétricos ganham peso, mas também a modularidade e o uso diário.
Carro do Ano: um evento dentro de um evento
Um dos eventos mais marcantes da exposição será a cerimônia de anúncio do vencedor do concurso. Carro Europeu do Ano 2026um dos prémios mais prestigiados da indústria europeia. Os finalistas incluem modelos tão diversos como Citroën C5 Aircross, Dacia Bigster, Fiat Grande Panda, Kia EV4, Mercedes-Benz CLA, Renault 4 e Škoda Elroq. Este caldeirão de finalistas reflecte não só as prioridades actuais – desde SUVs compostos a veículos eléctricos compactos – mas também uma variedade de abordagens que disputam o interesse dos condutores europeus.

Bruxelas como termómetro do mercado europeu
O Salão Automóvel de Bruxelas 2026 não é apenas uma grande exposição de novos produtos, mas também um verdadeiro termómetro do momento que a indústria automóvel europeia atravessa. No meio da pressão regulamentar, do abrandamento do crescimento em alguns mercados-chave e da hesitação dos consumidores relativamente à electrificação, o evento belga tornou-se um local para as marcas demonstrarem confiança em vez de promessas.
Ao contrário de outras mostras históricas que contaram com a influência mediática ou com o concept car, Bruxelas consolida um modelo mais pragmático: carros reais, estratégias comerciais específicas e modelos pensados para chegar ao cliente no curto prazo. É por esta razão que grandes grupos como a Stellantis redobraram o seu compromisso com este evento, utilizando-o como montra para o seu roteiro industrial na Europa.
A presença generalizada de veículos eléctricos, versões de longa autonomia, configurações de tracção integral e soluções específicas para profissionais reflecte um sector em que o debate já não é se a electrificação vai acontecer, mas sim como torná-la viável, rentável e aceitável para o consumidor médio. Ao mesmo tempo, a popularidade dos SUV compactos, dos novos crossovers e dos modelos urbanos confirma que o mercado continua a procurar fórmulas universais, eficientes e adaptadas à vida quotidiana.
Bruxelas também está a ganhar peso como fórum onde o pulso entre os produtores tradicionais e os novos intervenientes, especialmente os asiáticos, é medido no contexto de uma concorrência crescente e de ajustamentos de preços. Um público cada vez mais informado e exigente passa a ser o ator central, e os salões que conseguem se conectar com essa realidade sobrevivem.
Neste sentido, o 102.º Salão Automóvel de Bruxelas apresenta-se como uma fotografia nítida do automóvel europeu de 2026: menos bombástico, mais estratégia; menos protótipo, mais produto; Menos palavras, mais fatos. Um espetáculo que não procura deslumbrar, mas sim convencer e confirmar que o futuro dos automóveis já está a ser construído, pavilhão a pavilhão, modelo a modelo.
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