Espanha não vai participar no Conselho de Paz criado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que veio indicar que “poderia” substituir as Nações Unidas. “Agradecemos o convite, mas recusamos”, disse o primeiro-ministro Pedro Sánchez após uma reunião extraordinária do Conselho Europeu, que decorreu esta quinta-feira em Bruxelas para analisar a situação nas relações transatlânticas na sequência das ameaças de Trump contra a Dinamarca e a Gronelândia.
O Presidente deu a notícia depois de comunicar a sua decisão aos seus parceiros da UE. Outros Estados-membros como França, Alemanha, Suécia e Noruega já recusaram o convite do presidente norte-americano para participar no fórum. Sim, aceitaram líderes próximos dos republicanos, como o argentino Javier Miley, o israelita Benjamin Netanyahu ou o húngaro Viktor Orban. Outro membro da UE aderiu à UE: a Bulgária. Bielorrússia, Egito, Marrocos, Arábia Saudita e Turquia também participaram na sua criação na quarta-feira.
“Estamos fazendo isso por uma questão de consistência”, justificou o presidente, que deixou claro ter muitas dúvidas de que a organização que Trump quer construir respeite “a ordem multilateral e as regras das Nações Unidas”. “Além disso”, lembrou Sanchez, “não inclui a Autoridade Palestina”. O socialista destaca a contradição de que a principal tarefa deste conselho seja pacificar a Faixa de Gaza, e o governo liderado por Mahmoud Abbas não tenha convidados.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, também manifestou “sérias dúvidas sobre uma série de elementos da carta do Conselho da Paz relacionados com o seu âmbito de atividade, a sua governação e a sua compatibilidade com a Carta das Nações Unidas”. Fontes diplomáticas e públicas também indicaram que muitos países europeus terão dificuldade em sentar-se à mesma mesa de negociações com países como a Rússia ou a Bielorrússia (que também foram convidados e já aceitaram) quando a guerra contra a Ucrânia ainda está em curso e Putin continua a ordenar bombardeamentos quase todos os dias. A questão, disseram as fontes, era ver até que ponto Washington estava disposto a fazer as mudanças que a UE considerasse necessárias antes de aceitar o convite.
Além de anunciar a sua demissão do Conselho de Paz, Sánchez também se distanciou de Trump no que diz respeito aos gastos com defesa. O republicano voltou a criticar Espanha por não se ter comprometido a aumentar a despesa para 5% do PIB, como fizeram outros aliados da NATO. “Espanha triplicou o seu investimento na defesa desde que me tornei presidente do governo: 34 mil milhões de euros por ano para a defesa. São mais de 13 países da UE juntos”, explicou, para depois sublinhar que não quer aumentar a despesa militar à custa do corte na educação ou nos cuidados de saúde.
O Primeiro-Ministro respondeu também a perguntas sobre os acidentes ferroviários desta semana em Espanha, que custaram a vida a quase 50 pessoas. “A alta velocidade em Espanha é motivo de orgulho para todo o país. Esta é uma prioridade para o nosso governo, pois melhora a forma como viajamos”, afirmou. Depois falou sobre as vítimas: “Vamos responder com absoluta simpatia pelas vítimas; em segundo lugar, com transparência absoluta; em terceiro lugar, com cooperação entre administrações”.