Bom, me sinto julgada e ignorada pelas avós da minha filha, principalmente pela minha sogra.
Marta
– leitor elDiario.es
Martha tem uma filha de pouco mais de um ano. Após ler a opinião de Nidos em que a avó disse que se sentia julgada pela filha ao cuidar dos netos, ela respondeu com a opinião contrária: “Bom, eu me sinto julgada e ignorada pelas avós da minha filha, principalmente pela minha sogra”.
Acrescentando mais informações, Martha conta que sua situação é: “Eu me dou muito bem com a mãe do meu companheiro, mas esta é uma mulher que parou de trabalhar na criação dos filhos e sabe tudo sobre a criação dos filhos. Desde o momento em que minha filha nasceu, ela estava decidida a me consertar. Ela questiona minha alimentação, meu sono, até minha amamentação. Chegou até a agarrar meus seios para corrigir minha alimentação enquanto eu estava amamentando”, conta. Quanto à mãe, embora esperasse mais conflitos com ela, não se sentiu julgada, embora tenham sido necessários ajustes. “Com ela posso estabelecer meus limites, mas com minha sogra é mais difícil porque sinto que se fizer isso vai haver muitos conflitos”, explica. Martha trabalha e estuda, por isso suas avós a ajudam a cuidar dela quando nem ela nem seu companheiro podem cuidar dela.
A sua situação não é excepcional: hoje em dia há muitos avós, e sobretudo avós, que cuidam deles. O relatório das Aldeias Infantis concluiu que 35% das pessoas com mais de 65 anos cuidam dos netos vários dias por semana, dedicando uma média de 16 horas por semana ao cuidado das crianças. Em Espanha, mais de 30% dos avós são a primeira escolha para apoio aos filhos, de acordo com um inquérito europeu da Make Mothers Matter. E de acordo com Malasmadres, sete em cada 10 mulheres recorrem aos avós quando eles ou o seu parceiro (se tiverem um) não conseguem cuidar dos filhos.
Desde o momento em que minha filha nasceu, ela estava determinada a me consertar. Tire dúvidas sobre alimentação, sono e até amamentação. Ele até agarrou meus seios para corrigir minha amamentação enquanto eu amamentava.
Isto por vezes leva a conflitos entre avós e pais devido a diferenças nos estilos educativos ou nos princípios parentais básicos, conforme confirmado pela União das Associações Familiares (UNAF). “A tensão surge frequentemente mesmo em famílias que funcionam bem.” E referem-se ao caso específico de Marta: “Isso inclui situações em que avós ou sogras interferem na educação dos filhos, seja por afeto ou por medo, sem perceber que a mãe pode se sentir valorizada ou desvalorizada”, explica Susana Piedra, psicóloga e coordenadora de programas familiares da UNAF.
A psicóloga médica Violeta Alcocher confirma que os conflitos entre mães e avós não são incomuns. “Vemos isso regularmente nas consultas, especialmente quando trabalhamos com mães jovens. Isto é uma fonte de estresse emocional e tensão nos relacionamentos”, explica Alcocer. “A maternidade é um terreno onde se ativam muitos apegos, expectativas e padrões herdados. Portanto, mães e sogras, às vezes sem más intenções, podem projetar nas filhas ou noras como foram criadas, o que consideram certo ou normal, e também o que gostariam de fazer, mas não conseguiram fazer.” A condenação se manifesta, segundo a psicóloga, em frases como “não segure ele com tanta força nos braços”, “eu fazia isso e que bom que você saiu” ou “você está criando um tirano”. Declarações como essas podem fazer com que uma nova mãe se sinta “constantemente julgada”.
Susana Piedra, da UNAF, concorda com o diagnóstico: “Em alguns estilos parentais mais tradicionais, é bastante comum que as novas mães se sintam julgadas pelas próprias mães ou sogras e projetem na filha ou nora como elas próprias vivenciaram a maternidade.
A tensão surge muitas vezes mesmo em famílias que funcionam bem (…) em situações em que as avós ou as sogras intervêm na criação dos filhos, seja por amor ou por medo, sem perceber que a mãe pode sentir-se apreciada ou desvalorizada.
Susana Pedra
– psicóloga e coordenadora de programas familiares da UNAF
Busque maneiras de entender
Segundo especialistas, uma das chaves para resolver tais situações e resolver conflitos é encontrar formas de compreensão mútua. E para isso precisamos pensar no papel que cada pessoa ocupa no sistema familiar.
“Reorganizar os papéis familiares após o nascimento de um filho é fundamental para prevenir tensões e fortalecer vínculos saudáveis”, explica Susana Piedra, da UNAF. E oferece algumas recomendações que podem ajudar a superar as dificuldades desta fase: “Por um lado, a nova mãe deve assumir um papel de liderança na criação dos filhos e tomar as suas próprias decisões juntamente com o companheiro, se o tiver. É importante estabelecer desde o início que tipo de ajuda é necessária (prática, emocional, material) em relação à mãe ou à sogra, para não criar mal-entendidos que acabem por gerar conflitos óbvios”, começa. “Também é positivo que reconheçam o valor das experiências das avós, mas não se coíbem de tomar decisões. E temos que encontrar espaço para o diálogo para sermos claros sobre as necessidades que queremos que as avós satisfaçam”, diz Piedra.
A UNAF sugere expressar claramente as necessidades da mãe, por exemplo: “Preciso que você me escute sem julgar se estou cansada ou insegura” ou “Gostaria que as visitas fossem à tarde e que você me avisasse a tempo para que eu possa me organizar”. Por parte das avós, Susana Piedra observa que devem “assumir um papel de acompanhamento na criação dos filhos, em vez de um papel diretivo, com o objetivo de apoiar sem se intrometer”. E isto influencia esta ideia: “Ou seja, o papel dos avós já não é de autoridade, mas sim de influência emocional e de apoio prático”.
“O principal é entender que o nascimento de um filho é também o nascimento de novas personalidades e funções. Não aparece apenas um filho: nasce uma mãe, nasce um pai e nasce também uma avó. A família toda tem que se mudar”, explica Violeta Alcocher. Um dos segredos, na sua opinião, é mudar de papéis, entender quem dita os padrões na criação dos filhos. “Quando os avós cuidam pontualmente, pode haver certas nuances pessoais em seu estilo, isso é natural. Mas a linha educacional geral é definida pelo casal de pais. Não porque saibam mais, mas porque são eles que mantêm a coerência no dia a dia e conhecem melhor as necessidades atuais de um menino ou menina”, afirma Alcocer. Neste ponto, Susana Piedra sugere distinguir entre o “inegociável” – como regras de segurança, saúde, restrições básicas ou rotinas básicas – e o “flexível” – como formas de brincar, tradições ou planos específicos.
É de fundamental importância compreender que o nascimento de um filho é também o nascimento de novas personalidades e funções. Não nasce só uma criança: nasce uma mãe, nasce um pai, nasce também uma avó. Toda a família tem que se mudar
Violeta Alcocer
– psicólogo médico
Em seguida, os especialistas sugerem chegar a acordo sobre algumas regras básicas para evitar conflitos. “Não se trata de discutir todos os detalhes, mas sim de chegar a acordo sobre alguns princípios orientadores que refletem os valores educativos da família. Por exemplo, não usar gritos, ameaças ou chantagem emocional, seguir regras básicas, evitar determinados conteúdos ou ecrãs baseados na idade, ou manter um comportamento respeitoso mesmo durante o conflito”. Segundo o especialista, este consenso “reduz a confusão da criança, evita tensões entre os adultos e garante segurança para todas as partes”. “Isso também envia uma mensagem implícita muito saudável: 'Estamos no mesmo time, embora cada um tenha seu próprio estilo'”, diz Alcocer.
A UNAF oferece um exercício prático para estabelecer os mínimos acordados. “Por exemplo, podemos dizer o seguinte aos avós: “Gostaríamos que vocês tirassem uma soneca enquanto cuidam dela e não lhe dessem doces, principalmente antes do jantar. Quanto ao resto, como jogos ou histórias, você pode escolher o que mais gosta e o que acha que terá um impacto positivo na educação de uma menina.” Explicar claramente ideias como estas ajuda a evitar conflitos e a unificar esforços no cuidado das crianças.
Processos de transparência psíquica
em seu livro Preste atenção ao invisível (Planeta, 2025), Beatriz Casurro explica um conceito psicológico que opera nesse tipo de situação: a transparência psíquica. “Este é o processo pelo qual questões não resolvidas do passado e o luto são reativados ao longo da gravidez e da maternidade”, explica a autora. Em uma consulta sobre uma avó que se sentiu julgada, Casurro se aprofundou nessa ideia: “Muitos pais e mães começam a perceber como foi sua infância quando veem que estão desenvolvendo uma forma de lidar com os próprios filhos muito diferente daquela que vivenciaram na própria carne, e a partir daí começam a se tornar visíveis conflitos que até então não eram claramente visíveis. Mas o contrário também acontece: alguns pais sofrem muito ao ver os avós cuidando dos netos como gostariam que cuidassem deles”. Com mais carinho, paciência, menos cobrança… A relação é muito complexa e não há diretrizes comuns”, observou o especialista.
A psicóloga Violeta Alcocer também acredita que isso influencia possíveis conflitos intergeracionais e formas de resolvê-los: “A maternidade é um reativador biográfico: nos expõe a experiências, feridas ou padrões que muitas vezes são silenciados. Muitas mães me dizem em consulta: “Não quero repetir o que vivi, mas não sei fazer diferente”, admite Alcocer.