janeiro 19, 2026
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A associação profissional Militares con Futuro registou oficialmente no Conselho de Pessoal das Forças Armadas uma proposta que questiona o atual regime de trabalho dos militares. O texto dirigido ao Ministério da Defesa exige a adaptação imediata do regimento interno para equiparar o dia dos militares ao dia dos demais servidores públicos.

A iniciativa é apoiada pelo quadro jurídico já existente e pelas obrigações assumidas pela própria administração. O foco central é a alteração do Despacho DEF/1363/2016 com o objetivo de estabelecer uma jornada de trabalho de 35 horas semanais, introduzindo um sistema digital de controle de tempo e regulação objetiva das horas extras de trabalho.

Escassez de mão de obra dentro do próprio estado

O principal argumento da associação baseia-se no artigo 22.2 da Lei Orgânica 9/2011, que vincula diretamente o horário de trabalho dos militares com o horário dos funcionários públicos da Direção Geral de Estado. Com o desenvolvimento do Acordo-Quadro para a Administração do Século XXI, a jornada de trabalho de 35 horas tornou-se o padrão previsto para o período 2025-2026.

A falta de adaptação por parte da defesa, segundo o documento apresentado, criará uma situação de discriminação interna. Os funcionários que dependem do mesmo Estado e têm obrigações semelhantes verão diferentes direitos laborais reconhecidos, o que afectará directamente a remuneração efectiva dos militares.

Efeito econômico de não contar horas

Militares con Futuro enfatiza que a ausência de restrições efetivas à jornada de trabalho significa, na prática, a desvalorização dos salários. As horas extraordinárias não calculadas e não pagas aumentam a carga de trabalho sem afectar os salários, alterando o princípio da igualdade salarial no sector público.

Alertam que este cenário é agravado nas unidades operacionais, onde a disponibilidade constante é a norma e não a exceção.

A Europa estabelece fronteiras em tempos de paz

O suporte jurídico mais relevante para esta proposta encontra-se na jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia. No seu acórdão C-742/19, o tribunal concluiu que o pessoal militar que opera em tempos de paz está sujeito à Diretiva Europeia do Tempo de Trabalho.

Esta interpretação exige que os turnos que exijam assiduidade e os turnos que exijam disponibilidade imediata sejam contados como tempo de trabalho efectivo. O limite geral estabelecido pela regulamentação europeia é de uma média de 48 horas semanais.

Seguranças que não contam hoje

O actual sistema militar espanhol não integra estes guardas na vida quotidiana. Como consequência, muitos militares excedem regularmente os limites europeus sem compensação financeira regulamentada ou descanso equivalente.

A proposta registada exige que cada hora de excesso seja reconhecida e compensada numa escala objectiva, eliminando interpretações arbitrárias e alinhando o modelo militar com o resto do governo.

Interrogatório de Iniciação Especial

Um dos pontos mais importantes do documento é a avaliação do atual Adendo de Propósito Específico. A associação o define como um mecanismo opaco, sujeito à discricionariedade do comando e sem caráter de direito consolidado dos militares.

Em vez disso, é proposto um sistema de recompensas objetivas por mérito extraordinário, incluindo segurança, manobras, navegação e outras atividades que vão além do dia normal.

Modelos já existentes em outros órgãos

A iniciativa destaca exemplos já implementados noutras forças de segurança do Estado, como o pagamento por hora e os sistemas de compensação que garantem a transparência e a rastreabilidade do tempo trabalhado. O objetivo é eliminar a arbitrariedade e garantir a segurança jurídica do pessoal.

O tempo de gravação é fundamental

A introdução de um sistema digital de registo diário do tempo de trabalho é outra área da proposta. Sem controlos fiáveis, argumentam eles, a disponibilidade constante leva a um trabalho não reconhecido.

O cadastro permitirá a verificação da real carga de trabalho das unidades e servirá de base para a correta aplicação das restrições legais e compensações econômicas.

Modernização ou conflito oculto

Militares con Futuro alertam que a falta de adaptação regulatória aumentará a disparidade de direitos entre os militares e o resto da sociedade que servem. Esta proposta apresenta ao Departamento de Defesa um claro dilema: modernizar os seus recursos humanos ou assumir um cenário de aumento do stress laboral.

Assim, a jornada de trabalho de 35 horas e o fim da segurança não remunerada tornaram-se emblemáticos de um debate mais amplo sobre se as administrações militares profissionais estão adequadas para o século XXI.

Referência