Hoje, como todos os dias 4 de fevereiro desde 2010, é o Dia Mundial da Leitura em Voz Alta – uma data que convida não só a homenagear os livros, mas também a refletir sobre uma prática tão antiga como a própria leitura e, paradoxalmente, sobre cada … estão desaparecendo cada vez mais do nosso dia a dia. Porque muito se lê silenciosamente – nas telas, em alta velocidade, fragmentariamente, com pressa – mas muito pouco se lê em voz alta. No entanto, a compreensão da leitura, a competência que é tão preocupante em ambientes educativos e sociais e que o Ministro Urtasun ostenta como bandeira da sua liderança na educação, envolve inevitavelmente a leitura em voz alta.
Durante séculos, a leitura foi uma atividade comunitária e oral. A leitura sem som, como a entendemos hoje, surgiu há relativamente pouco tempo. No entanto, nas últimas décadas tem havido uma mudança ainda mais radical: a leitura em voz alta limita-se quase exclusivamente à primeira infância ou aos trabalhos escolares, como se fosse uma etapa que devesse ser ultrapassada o mais rapidamente possível. Este deslocamento tem consequências, e as consequências são terríveis. Compreender o texto não envolve apenas decifrar palavras, mas dar-lhes ritmo, intenção e significado. Apesar disso, esta prática está desaparecendo muito rapidamente do currículo escolar, como se a maturidade da leitura consistisse na leitura silenciosa e rápida.
Ler em voz alta nos obriga a parar e ouvir, e ouvir é uma habilidade cognitiva e social fundamental na qual não trabalhamos muito. Numa era dominada por estímulos constantes e discursos fragmentados, aprender a ouvir um texto lido em voz alta significa aprender a prestar atenção, respeitar o tempo e compreender sem pressa. Isso ensina você a observar a pontuação, modular a entonação e atribuir significado a cada frase. Quando lemos silenciosamente, podemos pular palavras, perder nuances ou interpretar superficialmente, muito superficialmente. Por outro lado, a leitura em voz alta confronta-nos com o texto sem abreviaturas: se não compreendemos o que lemos, a voz denuncia-o. Portanto, ler em voz alta também é uma forma de ler melhor e de se compreender melhor, uma forma de dialogar com os textos.
Voltar a ler em voz alta não significa abandonar a leitura silenciosa, mas sim complementá-la. Não se trata de olhar para o passado com nostalgia, mas sim de optar por uma educação mais completa, questionando planos educativos que sacrificam a profundidade em favor da rapidez. Isto significa devolver a leitura à sua dimensão sonora e humana. Ler em voz alta em casa, na sala de aula, nas bibliotecas ou em locais públicos não é uma atividade infantil ou marginal, mas uma prática cultural de primeira ordem. Neste Dia Mundial da Leitura em Voz Alta, vale lembrar que ler é mais do que apenas olhar as palavras. Ler é ouvir, falar e compreender. E para compreender verdadeiramente, às vezes é preciso ler novamente, como antes: em voz alta, porque, como diz Antonio Muñoz Molina, “as palavras são melhor compreendidas quando são ouvidas”. E ideias também.