Escrevo esta coluna enquanto voo para a Groenlândia, via Copenhague e Reykjavik. Um desejo de aprender e tentar compreender o que chamamos de “nova ordem mundial”. E viramos cada página de um roteiro chamado “O Grande Teatro do Mundo” (cortesia de Calderon de … La Barca) confirma que se abrem grandes oportunidades para a Europa/nós. Um capítulo sobre a Groenlândia seria suficiente para nos acordar e focar em três chaves:
1.- Devemos considerar seriamente e de uma vez por todas a nossa defesa e segurança como a chave dos nossos valores. E esta enorme ilha, quatro vezes maior que a Espanha, é o local perfeito para um escudo antimísseis.
2.- Teremos que avançar para a independência mineral, tecnológica e energética. E pare de ficar brincando estudando, explorando e aproveitando o que é nosso.
e 3.- Bastaria olhar para um mapa mundial e compreender que a rota do Ártico é necessária para reduzir os custos de transporte, logística e comércio global. Especialmente quando o comparamos com o Oceano Índico, o Canal de Suez, o Cabo Horn ou o Cabo da Boa Esperança (é aqui que se enquadram as alterações climáticas e o derretimento do gelo).
Neste sentido, devemos sublinhar que a China tem vindo a rever as três chaves anteriores há muitos anos, que a Rússia as conhece, mas não pode, e que os Estados Unidos estão atrasados e daí a pressa. Em termos históricos, vale a pena recordar que os Estados Unidos já tinham literalmente “comprado” o Texas, o Novo México, a Califórnia, o Nevada, o Utah, o Arizona… E que estavam a um passo de nos comprar Cuba (o que, aliás, teria sido melhor do que a guerra e o desastre de 98). E que nada disto, como tudo isto, não é a lei da selva. Não. Esta é a lei do Extremo Oeste.
A penúltima é que Trump está a considerar comprar a independência da Gronelândia com uma doação de 100 mil dólares para cada um dos seus mais de 50 mil residentes. Isto é, por 5 mil milhões de dólares mais uma conta hipotética do governo dinamarquês. O Senhor Presidente já o disse: “Os limites da minha política externa são determinados pelo meu próprio sentido de moralidade”. Bem, nós nos corrigimos.
Para concluir, li a análise de Gustavo de Aristegui (e espero que ele esteja certo): “O resultado mais provável, se a racionalidade prevalecer, será um acordo mais forte com uma maior presença americana, mais investimento ocidental, mais protecção da China, e uma fórmula que não quebre a NATO”.
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PS A memória é inevitável: a última vez em Espanha que mencionámos a Gronelândia foi no início dos anos 80 do século passado, quando os Zombies cantaram: “E ooooh vou procurar a Gronelândia…”.
Bem, pegue. Como a história muda. Vamos nos cansar disso.